Gram-negativos: o LPS e quatro gêneros (Pseudomonas, Acinetobacter, Neisseria, Haemophilus)
Sete revisões abertas, de uma molécula comum a quatro gêneros: o LPS (endotoxina) que todo Gram-negativo carrega, de onde ele vem e o que o hospedeiro percebe; o Pseudomonas aeruginosa e suas três camadas de resistência (intrínseca, adaptativa e adquirida) e a carga do LPS diante dos antimicrobianos catiônicos; o Acinetobacter baumannii, patógeno oportunista do hospital que persiste em biofilme; o meningococo, comensal da via respiratória que na minoria dos portadores causa doença invasiva, e o papel da cápsula; e o Haemophilus influenzae, do Hib ao tipo não tipável. Ficam de fora as Enterobacteriaceae e suas síndromes por gênero, os demais Gram-negativos, a identificação laboratorial de rotina e o tratamento.
Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Essencial
- O Gram-negativo expõe LPS na superfície: o lipídio A, ancorado no folheto externo da membrana externa, é a parte percebida pelo hospedeiro.
- O LPS chega aos tecidos e à circulação, pela ruptura de bactérias íntegras ou por translocação a partir do trato gastrointestinal.
- O LPS extracelular ativa o complexo TLR4/MD-2, na superfície celular e em endossomos; a via do TLR4 forma citocinas pró-inflamatórias por MyD88 e NF-κB. O outro sensor do LPS é citosólico: a caspase-11 (caspases-4 e -5 em humanos).
- Em camundongos e em modelos pré-clínicos, o LPS extracelular depende da HMGB1 para alcançar o sensor citosólico: o complexo HMGB1-LPS é endocitado via RAGE e ativa a caspase-11, com inflamação e coagulação; não há estudo clínico de terapia dirigida à HMGB1.
- Sepse por Gram-negativos: resposta sistêmica desregulada com disfunção de órgãos, mais frequentemente respiratória, renal, cardiovascular, gastrointestinal, hepática, neurológica e da coagulação.
- O LPS tem carga global negativa e é o alvo inicial das polimixinas, antimicrobianos catiônicos.
- Em P. aeruginosa, a modificação do LPS ocorre em resposta a baixo Mg2+ ou à exposição a peptídeos antimicrobianos catiônicos e a polimixinas; sistemas de dois componentes (PmrAB, PhoPQ, CprRS e ParRS) regulam o operon arnBCADTEF em resposta a sinais ambientais.
- O operon arnBCADTEF acrescenta 4-amino-4-desoxi-L-arabinose (L-Ara4N) ao fosfato do lipídio A.
- A carga líquida negativa da membrana diminui, e com ela a interação eletrostática com antimicrobianos de carga positiva.
- O fármaco se liga menos ao LPS, que normalmente desestabilizaria e romperia a membrana: há resistência às polimixinas.
- O meningococo é comensal do trato respiratório de pessoas saudáveis; a espécie humana é seu único hospedeiro natural.
- A doença é rara em comparação com a colonização; o que transforma o estado de colonização em doença não está inteiramente claro: parece haver combinação de fatores de virulência da bactéria e suscetibilidade do hospedeiro (idade, infecção viral prévia, tabagismo).
- No sangue, a cápsula ajuda a sobrevivência: torna a bactéria resistente à morte mediada por anticorpo e complemento e inibe a fagocitose; os isolados de sangue e de líquor são invariavelmente capsulados.
- Doença invasiva, com mortalidade de até 10% dos casos invasivos (até 55% na septicemia fulminante).
- Os sobreviventes costumam conviver com sequelas físicas e mentais, como amputação de membros e dedos, cicatrizes na pele, surdez, prejuízo da fala e convulsões.
Na clínica
- Estrutura e posição do LPS na bactéria · O LPS (endotoxina) é um glicolipídio: o lipídio A, hidrofóbico, fica ancorado no folheto externo da membrana externa, e a parte polissacarídica, hidrofílica, projeta-se para fora da célula, com dois domínios, o núcleo oligossacarídico e o antígeno O. Compõe cerca de 75% da superfície do folheto externo da membrana externa. · A parte da molécula percebida pelo hospedeiro e responsável por ativar o sistema imune é o lipídio A.
- Quando o LPS chega à circulação · É liberado na circulação quando bactérias íntegras que infectam o sangue ou os tecidos são rompidas (morte, lise celular); também pode entrar por translocação a partir do trato gastrointestinal quando a função de barreira está comprometida. · O LPS é componente da própria parede; a barreira intestinal pode ser comprometida por hipoperfusão, inflamação, desregulação da flora comensal ou sepse de qualquer origem.
- Endotoxina elevada sem Gram-negativo na cultura · Níveis elevados de endotoxina ocorrem em infecção por Gram-negativo documentada em cultura, mas também em infecção por Gram-positivo ou fúngica e em outros casos de choque séptico em que nenhuma fonte microbiológica é identificada. · No choque, na hipoxemia e na hipoperfusão intestinal, a endotoxina pode atravessar a barreira mucosa do intestino; por isso a endotoxina elevada não equivale a uma infecção por Gram-negativo documentada.
- Voluntários humanos que recebem endotoxina · Há aumento dose-dependente e reprodutível de TNF, de IL-6 e da citocina anti-inflamatória IL-10. A resposta cardiovascular descrita inclui queda da pressão arterial média e aumento da frequência cardíaca. · A endotoxina provoca uma resposta hiperinflamatória característica; os humanos estão entre as espécies mais sensíveis a ela, mas dispõem de várias defesas.
- Onde adoece · É a principal causa de infecções nosocomiais por Gram-negativos e de infecção pulmonar em pessoas com fibrose cística; também causa infecção na DPOC e na bronquiectasia sem fibrose cística. · É uma bactéria ambiental onipresente, capaz de infecção oportunista em plantas e animais, inclusive humanos.
- Resistência intrínseca · Está codificada no genoma central: baixa permeabilidade da membrana externa (12 a 100 vezes menor que a da Escherichia coli), bombas de efluxo e β-lactamases, como a OXA-50 e a AmpC. · A relativa escassez de porinas diminui a velocidade com que os antibióticos penetram na célula; os que conseguem entrar são rapidamente extrudados pelas bombas, e a barreira e o efluxo trabalham em cooperação.
- Resistência adaptativa · É induzida por estímulos externos, como fatores de estresse e a presença de certos antibióticos; é transitória e instável, e fica inativa quando o fator de estresse é retirado. · Costuma envolver vias regulatórias e leva à expressão gênica alterada, a mudanças na produção de proteínas ou à alteração do alvo.
- Resistência adquirida, e o pulmão da fibrose cística · Surge pelo ganho de genes de resistência de outros organismos ou pela seleção de mutações vantajosas; a resistência mutacional, ao contrário da adaptativa, não é transitória. Nos isolados de fibrose cística, a resistência adquirida por mutações adaptativas é comum. · Há longos períodos de pressão seletiva durante o tratamento antibiótico prolongado da infecção crônica e a ação dos efetores imunes do hospedeiro.
- Quem adoece · Pacientes imunocomprometidos, sobretudo os de internação prolongada (mais de 90 dias); também quem tem dispositivos artificiais (cateteres, suturas, ventiladores) ou fez diálise ou antimicrobianos nos 90 dias anteriores. · É um patógeno oportunista, associado principalmente a infecções hospitalares; só raramente integra a microbiota normal da pele (em um estudo, no máximo 3% da população estava colonizada).
- Onde persiste e como se transmite no hospital · Forma biofilme em superfícies inanimadas, como vidro e equipamentos de UTI, e na superfície do tubo endotraqueal, o que pode explicar os níveis relativamente altos de colonização do trato respiratório inferior em pacientes ventilados. Surtos foram descritos por mãos colonizadas de profissionais; ventiladores e equipamentos respiratórios contaminados e a transmissão intra-hospitalar também podem contribuir para o início de um surto. · O biofilme permite crescer de forma persistente em condições e ambientes desfavoráveis; a OmpA, a proteína de superfície mais abundante, participa da resistência ao complemento e da formação de biofilmes, e contribui de forma significativa para o potencial de causar doença.
- Como acumula resistência · Todas as variantes genômicas têm uma cefalosporinase AmpC cromossômica não induzível; a superexpressão dela, com resistência a cefalosporinas de espectro estendido, está ligada à presença de ISAba1. Na cepa AYE, uma região de 86 kb, uma ilha de resistência, reunia 45 genes de resistência. · A capacidade do organismo de trocar a estrutura do genoma explica em parte a rapidez com que o Acinetobacter captura marcadores de resistência sob pressão antibiótica; a maior parte dos genes de resistência da AYE foi adquirida recentemente de Pseudomonas, Salmonella ou Escherichia.
- Coloração de Gram · É um bacilo Gram-negativo aeróbio, pleomórfico e imóvel, mas costuma ser identificado de forma incorreta como Gram-positivo. · Os organismos são, com frequência, difíceis de descorar.
- O que ainda não se sabe · Pouco se sabe sobre o repertório de virulência do Acinetobacter como um todo. · Apesar da extensa pesquisa sobre a virulência do patógeno, o repertório real continua pouco conhecido.
- Adultos saudáveis e populações em contato próximo · Em adultos saudáveis, a taxa de portadores relatada costuma ficar entre 10 e 35%; em populações em contato próximo, como estudantes universitários ou recrutas militares, foram encontradas taxas próximas de 100%. · A estimativa de portadores é limitada pela técnica de coleta; mesmo assim, comparada com a taxa de portadores, a doença é rara.
- Sorogrupos e geografia · Treze sorogrupos foram descritos pela cápsula, mas a maior parte da doença é causada por cinco (A, B, C, Y e W-135). Segundo a revisão de 2010, na Europa e nas Américas predominam B e C; na África, A e C; o Y é geralmente associado à doença nos EUA e no Canadá e o W-135 causa surtos em vários países. · Os fatores que determinam essa variação geográfica também são incompletamente compreendidos.
- Forma clínica da doença invasiva · A mortalidade é maior na septicemia fulminante (até 55%), seguida da meningite com septicemia associada (até 25%) e menor na meningite sem sepse (geralmente menos de 5%). · A mortalidade depende do tipo e da gravidade da doença invasiva.
- Vacinas contra a cápsula · Os antígenos capsulares purificados provocam anticorpos protetores, mas não induzem memória de longo prazo; para superar essa deficiência foram introduzidas as vacinas conjugadas. · A resposta ao polissacarídeo isolado não gera memória duradoura.
- Colonizador saudável · Levantamentos desde a década de 1930 mostram taxas de portadores saudáveis de até 80%: o H. influenzae é membro da flora normal das vias aéreas superiores. A colonização da nasofaringe é o único pré-requisito confiável tanto da doença de mucosa quanto da invasiva. · É um patobionte: associa-se tanto a colonização assintomática quanto a uma variedade de estados de doença.
- Hib (sorotipo b, encapsulado) · Historicamente, antes da vacina conjugada, foi o sorotipo principal da doença invasiva, causando sobretudo meningite em menores de 5 anos, além de pneumonia, bacteremia, epiglotite, artrite séptica, osteomielite, pericardite e celulite; a partir da década de 1960 foi reconhecido como a principal causa de meningite bacteriana na primeira infância no mundo. · A cápsula de polirribosilribitol fosfato (PRP) é o seu fator de virulência-chave: protege contra a opsonização e a fagocitose e também contra a dessecação.
- H. influenzae não tipável (NTHi, sem cápsula) · Causa infecções respiratórias crônicas e exacerbações de DPOC e bronquiectasia, é uma das causas mais comuns de sinusite aguda e otite média em todas as idades e a principal causa de otite média crônica em crianças. · A patogenicidade do H. influenzae não pode ser atribuída por completo à cápsula: cepas não encapsuladas se associam a um espectro de doenças de mucosa e invasivas.
- Países com alta cobertura da vacina Hib · O NTHi é a principal causa de doença invasiva por H. influenzae e se apresenta como bacteremia sem foco, pneumonia ou meningite, inclusive em neonatos de mães colonizadas na vagina pelo NTHi. · A vacina conjugada é dirigida ao polissacarídeo capsular do Hib; depois que ela foi implementada, o NTHi passou a chamar atenção pela capacidade de causar doença invasiva.
- Lactentes e a vacina conjugada · A vacina de PRP puro não protegeu crianças com menos de 18 meses; a conjugação do PRP a uma proteína carreadora superou o limite, e a incidência de doença invasiva por Hib em menores de 5 anos nos Estados Unidos, em 2017, foi de 0,18 por 100.000, uma queda de mais de 99%. · Os polissacarídeos bacterianos são, em geral, maus imunógenos para lactentes jovens porque são antígenos T-independentes e dependem de respostas de anticorpos imaturas na vida precoce.
Teste-se antes de seguir
O LPS é chamado de endotoxina e ocupa a maior parte da superfície externa de um Gram-negativo. De que partes ele é feito e qual delas o hospedeiro percebe para ativar o sistema imune?
A resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Responder na AvaliaçãoFontes (7)
- Foster DM, Kellum JA. Endotoxic Septic Shock: Diagnosis and Treatment. Int J Mol Sci. 2023;24(22):16185.
Endotoxin, also referred to as lipopolysaccharide (LPS), is a potent stimulator of the inflammatory cascade which may progress to sepsis and septic shock.
- Andersson U, Yang H. HMGB1 is a critical molecule in the pathogenesis of Gram-negative sepsis. J Intensive Med. 2022;2(3):156-166.
One is Toll-like receptor 4 (TLR4), expressed on cell surfaces and in endosomes, and the other is the cytosolic receptor caspase-11 (caspases-4 and -5 in humans).
- Langendonk RF, Neill DR, Fothergill JL. The Building Blocks of Antimicrobial Resistance in Pseudomonas aeruginosa: Implications for Current Resistance-Breaking Therapies. Front Cell Infect Microbiol. 2021;11:665759.
It is the primary cause of Gram-negative nosocomial infections and of lung infections in people with cystic fibrosis (CF)
- Olaitan AO, Morand S, Rolain JM. Mechanisms of polymyxin resistance: acquired and intrinsic resistance in bacteria. Front Microbiol. 2014;5:643.
These strategies include alterations of their lipopolysaccharides (LPSs), which have overall negative charges and are the initial targets of polymyxins
- Howard A, O'Donoghue M, Feeney A, Sleator RD. Acinetobacter baumannii: an emerging opportunistic pathogen. Virulence. 2012;3(3):243-250.
Acinetobacter baumannii is a Gram-negative bacillus that is aerobic, pleomorphic and non-motile.
- Hill DJ, Griffiths NJ, Borodina E, Virji M. Cellular and molecular biology of Neisseria meningitidis colonization and invasive disease. Clin Sci (Lond). 2010;118(9):547-564.
N. meningitidis is a commensal organism found frequently in the respiratory tract of healthy individuals.
- Amero K, St Geme JW 3rd. Haemophilus influenzae: imposter, mucosal pathobiont, and model organism. J Bacteriol. 2026;208(5):e0008326.
Surveys dating back to the 1930s have shown that carriage rates among healthy individuals are as high as 80%, demonstrating that H. influenzae is a member of the normal flora in the human upper respiratory tract
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