Eletrofisiologia cardíaca: automatismo do nó sinusal, condução e potencial de ação ventricular
Em 30 segundos
Esta unidade trata do que faz o nó sinoatrial comandar o ritmo e de como suas células disparam sozinhas; do caminho do impulso dos átrios aos ventrículos; e do potencial de ação do miócito ventricular e de sua refratariedade.
Escopo e método deste resumo
Esta unidade trata do que faz o nó sinoatrial comandar o ritmo e de como suas células disparam sozinhas; do caminho do impulso dos átrios aos ventrículos; e do potencial de ação do miócito ventricular e de sua refratariedade. Liga isso à bradicardia e aos marca-passos latentes, à ação da adenosina e da acetilcolina sobre o nó, à falha de condução entre o nó e o átrio e aos mecanismos celulares do marca-passo; fica de fora a leitura do ECG.
Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Essencial
- As células condutoras do coração não têm potencial de repouso estável: canais que deixam o Na+ entrar de forma lenta fazem o potencial subir devagar, de cerca de -60 mV até cerca de -40 mV (despolarização espontânea, ou prepotencial). Os canais HCN conduzem uma corrente de entrada mista de Na+ e K+, a corrente «funny» (If), que favorece essa despolarização diastólica.
- Em cerca de -40 mV os canais de Ca2+ se abrem; o Ca2+ entra e despolariza a célula mais depressa, até cerca de +15 mV.
- Os canais de Ca2+ fecham e os canais de K+ se abrem; a saída de K+ repolariza a célula.
- Perto de -60 mV os canais de K+ fecham e os de Na+ se abrem, e o prepotencial recomeça: é o que explica a autorritmicidade do músculo cardíaco.
- O nó sinoatrial, na parede superior e posterior do átrio direito junto à veia cava superior, inicia o impulso, que se espalha pelos átrios (a importância das vias internodais é debatida, pois o impulso também chegaria ao nó AV de célula em célula pelo miocárdio atrial).
- O esqueleto fibroso do coração impede que o impulso passe dos átrios para as células miocárdicas dos ventrículos, exceto (normalmente) pelo nó atrioventricular (AV).
- No nó AV há uma pausa de cerca de 100 ms, em parte pelo pequeno diâmetro das células do nó e pela condução menos eficiente entre elas; a pausa deixa os átrios completarem a contração antes de o impulso chegar aos ventrículos.
- O feixe AV (de His) atravessa o septo interventricular, divide-se nos ramos direito e esquerdo, e ambos descem até o ápice do coração.
- As fibras de Purkinje têm condução inerente rápida e levam o impulso a todas as células musculares ventriculares em cerca de 75 ms.
- Como o estímulo elétrico começa no ápice, a contração começa no ápice e avança para a base, o que bombeia o sangue dos ventrículos para a aorta e o tronco pulmonar.
- A célula contrátil tem repouso estável (cerca de -90 mV nos ventrículos e -80 mV nos átrios) e normalmente não inicia o próprio potencial: espera o impulso chegar.
- Com o impulso, canais de Na+ dependentes de voltagem se abrem rapidamente e o potencial sobe, em retroalimentação positiva, até cerca de +30 mV, quando os canais de Na+ fecham (3 a 5 ms).
- Segue-se o platô (cerca de 175 ms): canais lentos de Ca2+ se abrem e deixam o Ca2+ entrar enquanto poucos canais de K+ estão abertos, e o potencial declina devagar.
- Perto de zero, os canais de Ca2+ fecham e os de K+ se abrem; o K+ sai e a célula repolariza (cerca de 75 ms) até o repouso.
- O platô dá ao miocárdio contrátil períodos refratários longos (absoluto de cerca de 200 ms e relativo de cerca de 50 ms), de modo que a célula só dispara de novo depois de bombear o sangue.
Mecanismo do marca-passo: canais HCN (corrente «funny», If; HCN4 é a isoforma principal) e, depois, canais de Ca2+ no potencial de ação nodal
Nó sinoatrial: parede superior e posterior do átrio direito, junto à abertura da veia cava superior
IKr (K+, retificadora tardia rápida) e ICaL (Ca2+ do tipo L)
Sarcolema do miócito ventricular
Cada componente do sistema de condução (nó sinoatrial, nó AV, feixe AV, ramos e fibras de Purkinje) pode gerar o próprio impulso, mas a frequência inerente diminui progressivamente do nó sinoatrial às fibras de Purkinje.
Sem controle nervoso ou endócrino, o nó sinoatrial iniciaria cerca de 80 a 100 impulsos por minuto (o livro-texto; a revisão dá cerca de 60 a 125 por minuto em humanos). No esquema do livro-texto, sem o nó sinoatrial, o nó AV geraria 40 a 60 por minuto; se a condução pelo nó AV fosse bloqueada, o feixe AV dispararia cerca de 30 a 40, os ramos cerca de 20 a 30 e as fibras de Purkinje cerca de 15 a 20. A frequência é modulada pelos sistemas endócrino e nervoso, e o foco mais rápido comanda.
As células do nó sinoatrial humano expressam mais receptor de adenosina A1 e canal GIRK4 do que o átrio; a acetilcolina, pelos receptores muscarínicos M2, ativa os mesmos canais GIRK1/4 que a adenosina. A adenosina é liberada pelos miócitos sobretudo no estresse metabólico, como na isquemia.
A adenosina e a acetilcolina facilitam a corrente de K+ IK,Ado (ou IK,ACh) pelos canais GIRK1/4; a saída de K+ hiperpolariza a membrana e suprime o potencial de ação das células marca-passo. Além disso, ambas se opõem à sinalização adrenérgica ao reduzir a produção de AMP cíclico, o que suprime If e a corrente de Ca2+ tipo L.
Os canais HCN são canais catiônicos dependentes de voltagem que conduzem uma corrente de entrada mista de Na+ e K+, a corrente «funny» (If); HCN4 é a isoforma principal responsável por If nas células marca-passo.
If favorece a despolarização diastólica espontânea das células marca-passo; por isso, bloquear If com a ivabradina (bloqueador do canal HCN) diminui o automatismo dessas células, o que mostra o papel central desses canais.
O nó sinoatrial é uma região compacta, densamente fibrosa, em torno da artéria do nó, funcionalmente isolada do átrio, exceto em duas a cinco vias de condução sinoatriais (SACPs) discretas.
O nó, de pequena massa, tem de ativar um miocárdio atrial muito maior, com potencial de repouso mais negativo (cerca de -85 mV segundo a revisão; o livro-texto dá -80 mV para o átrio) e, portanto, um «sorvedouro» de corrente maior; sugere-se que a condução lenta e restrita às SACPs dê tempo para o nó atingir o limiar e acumular carga, o que depois excita o átrio. Em corações humanos isolados, vários marca-passos intranodais e várias SACPs funcionaram como redundância: sob adenosina, o marca-passo central foi suprimido e outros assumiram, e só a falha de todos os marca-passos ou de todas as SACPs levou a parada ou bloqueio.
Nas células marca-passo propõem-se dois sistemas oscilatórios: o «relógio de membrana» (a cinética de ativação e inativação dos canais iônicos) e o «relógio de Ca2+» (liberações locais rítmicas de Ca2+ do retículo sarcoplasmático pelo receptor de rianodina na diástole, recaptação pela SERCA e extrusão de Ca2+ pelo trocador Na+/Ca2+ na diástole seguinte).
O trocador NCX1 sustenta uma corrente de entrada (INCX). Em camundongos com deleção condicional de Ncx1 (que mantinha cerca de 20% da INCX), a frequência basal foi semelhante à do controle, mas os aumentos de frequência com isoproterenol ou com o agonista de canal de Ca2+ BayK8644 foram atenuados ou eliminados; os autores concluem que a frequência basal depende sobretudo de If e que INCX é necessária para acelerar a frequência no estresse.
Os canais de Na+ do miócito ventricular são inativados pela despolarização da membrana: quanto mais despolarizado o repouso, mais canais de Na+ ficam inativados.
No modelo ventricular humano ToR-ORd (simulação calibrada e validada com dados humanos), elevar o K+ extracelular aumentou o potencial de repouso (menos negativo) e reduziu a amplitude da subida do potencial de ação; por isso a duração do potencial encurtou, mas o período refratário efetivo ficou mais longo, pela inativação mais forte dos canais de Na+ causada pelo repouso elevado (a refratariedade não depende só da duração do platô, mas também de quantos canais de Na+ estão inativados). O modelo reproduziu a refratariedade pós-repolarização mais longa na hipercalemia observada em experimentos.
Na clínica
Na maioria das pessoas, frequências abaixo de 50 por minuto indicam bradicardia, limiar adotado pelo livro-texto (alguns atletas aeróbicos muito treinados têm 30 a 40 em repouso); muito abaixo disso o coração não mantém fluxo adequado aos tecidos vitais, com perda progressiva de função, inconsciência e, por fim, morte. Uma área que não seja o nó sinoatrial e inicie um impulso, seguido de contração prematura, é um foco ectópico (marca-passo ectópico).
Em corações humanos isolados, a adenosina produziu bloqueio de saída, pausas atriais e parada do nó em parte dos corações (5 de 11 a 10 μM), e a tertiapina (bloqueador de GIRK) reverteu e preveniu a depressão do nó induzida pela adenosina; em estudos clínicos, pacientes com disfunção do nó sinusal têm resposta bradicárdica aumentada à adenosina em bolus, com pausas atriais de 2 a 23 s.
Mutações de perda de função do gene HCN4 afetam If e associam-se a disfunção do nó sinusal em humanos; a disfunção do nó sinusal manifesta-se sobretudo como bradicardia grave, arritmias taqui-bradi e anormalidades de condução.
O bloqueio da ativação dentro das SACPs, o bloqueio de saída (exit block), causa pausas atriais prolongadas, sobretudo em corações insuficientes. O conteúdo fibroso do nó aumenta com a idade, de cerca de 24% a 70% mesmo em corações humanos sadios (propõe-se que os feixes fibrosos ajudem a isolar eletricamente o automatismo do nó dos efeitos hiperpolarizantes do átrio adjacente). Em corações doentes, a revisão atribui a parada sob adenosina à ausência de marca-passos e de vias de reserva funcionais.
No nó sinoatrial de cão, bloquear o relógio de Ca2+ com rianodina não alterou a atividade basal e só impediu a aceleração por isoproterenol (outro estudo citado na mesma revisão mostra que os relógios de voltagem e de Ca2+ existem e cooperam, na linha de base e sob estimulação adrenérgica); se o relógio de Ca2+ tem papel nas células nodais de cão e de humano ainda não está determinado (a própria revisão registra as duas posições). Este bloco descreve mecanismo experimental (camundongo, cão), não conduta.
A dispersão dos períodos refratários efetivos entre zonas normais e isquêmicas forma um substrato para o início de arritmia por reentrada. Este bloco trata só da refratariedade do miócito ventricular; o efeito do K+ sobre o repouso e a excitabilidade de neurônio e músculo esquelético está na unidade de potencial de ação.
Teste-se antes de seguir
Todas as partes do sistema de condução do coração são capazes de gerar impulsos por conta própria, e mesmo assim o ritmo normal é comandado por um único local. O que decide quem comanda e onde fica esse local?
A resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Responder na AvaliaçãoFontes (5)
- Betts JG, Young KA, Wise JA, Johnson E, Poe B, Kruse DH, Korol O, Johnson JE, Womble M, DeSaix P. Anatomy and Physiology 2e. Houston: OpenStax; 2022. Section 19.2, Cardiac Muscle and Electrical Activity.
Unlike skeletal muscles and neurons, cardiac conductive cells do not have a stable resting potential.
- Kalyanasundaram A, et al. Canine and human sinoatrial node: differences and similarities in the structure, function, molecular profiles, and arrhythmia. J Vet Cardiol. 2019.
They are voltage-gated cation channels responsible for conducting a mixed Na + -potassium inward current. This current, also known as the “funny current” (I f ) is shown to facilitate spontaneous diastolic depolarization in pacemaker myocytes
- Tomek J, et al. Development, calibration, and validation of a novel human ventricular myocyte model in health, disease, and drug block. eLife. 2019;8:e48890.
the rapid delayed rectifier current (I Kr ), the dominant repolarisation current in human ventricle
- Li N, et al. Redundant and diverse intranodal pacemakers and conduction pathways protect the human sinoatrial node from failure. Sci Transl Med. 2017;9(400).
Adenosine-induced SAN exit block or SAN arrest led to atrial pauses during sinus rhythm in 5 of 11 hearts at 10 μM
- Gao Z, et al. Genetic inhibition of Na+-Ca2+ exchanger current disables fight or flight sinoatrial node activity without affecting resting heart rate. Circ Res. 2013;112(2):309-17.
The Na + -Ca 2+ exchanger 1 (NCX1) also supports an inward current ( I NCX ) that may be directly or indirectly augmented by isoproterenol.
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