Glia e mielinização: oligodendrócito, célula de Schwann e desmielinização
Em 30 segundos
A unidade cobre quais células da glia formam mielina em cada compartimento do sistema nervoso e como elas diferem, por que o oligodendrócito é vulnerável, o que se perde nas doenças desmielinizantes (adquiridas e genéticas) e como e até onde a mielina é refeita.
Escopo e método deste resumo
A unidade cobre quais células da glia formam mielina em cada compartimento do sistema nervoso e como elas diferem, por que o oligodendrócito é vulnerável, o que se perde nas doenças desmielinizantes (adquiridas e genéticas) e como e até onde a mielina é refeita. Baseia-se em quatro revisões abertas e no OpenStax; ficam de fora a regeneração do nervo periférico, a barreira hematoencefálica e o tratamento.
Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Essencial
- Progenitor: o oligodendrócito deriva de células progenitoras de oligodendrócitos (OPC), que proliferam, migram e se diferenciam em oligodendrócitos mielinizantes; um reservatório de OPC persiste no SNC adulto.
- Escolha do axônio: o oligodendrócito seleciona axônios com diâmetro acima de 0,2 µm (dado de roedor); segundo a revisão, os sinais moleculares desse reconhecimento ainda são desconhecidos.
- Envoltura: a mielinização de vários axônios por um oligodendrócito é coordenada e ocorre numa janela curta, tipicamente de 12 a 18 horas (dado de roedor); depois de maduro, o oligodendrócito é relativamente incapaz de mielinizar.
- Bainha: a mielina é uma extensão da membrana plasmática da glia, rica em lipídeos e com proteínas integrais, enrolada várias vezes em volta do axônio com pouco ou nenhum citoplasma entre as camadas.
- Condução: os canais de sódio ficam nos nós de Ranvier, onde curtas porções do axônio ficam sem bainha, e o oligodendrócito induz esse agrupamento; o potencial de ação salta de nó em nó, a condução saltatória.
- Suporte: além de isolar, o oligodendrócito pode gerar lactato e transferi-lo ao axônio para produzir ATP; o transporte axonal e a viabilidade do neurônio parecem depender de mielina adequada.
- Demanda: no pico da mielinização, o oligodendrócito produz cerca de três vezes o seu peso em membrana por dia (estimativa citada pela revisão) e, para mielinizar bem, precisa de taxas metabólicas altíssimas, com grande consumo de oxigênio e ATP.
- Subproduto: a produção de ATP forma peróxido de hidrogênio como subproduto tóxico, e o metabolismo alto também cria espécies reativas de oxigênio.
- Fragilidade: OPC e oligodendrócitos têm os maiores estoques intracelulares de ferro do encéfalo, e os oligodendrócitos têm pouca glutationa, um antioxidante; somados ao metabolismo alto, isso os deixa particularmente vulneráveis a dano oxidativo.
- Agressões: o dano oxidativo contribui para a perda de oligodendrócitos em muitas condições, como esclerose múltipla e isquemia; eles também são suscetíveis à morte por excitotoxicidade e ao ataque imune; autoanticorpos contra a superfície da mielina ou do oligodendrócito podem induzir desmielinização.
- Placa: quando a agressão atinge ao mesmo tempo a mielina e os oligodendrócitos, formam-se placas de desmielinização primária nitidamente demarcadas.
- Consequência: o isolamento dos axônios fica comprometido e a sinalização elétrica fica mais lenta.
- Perda: a desmielinização é o processo ou estado resultante da perda ou destruição da mielina, e é marca de doenças como esclerose múltipla, lesão medular contusa e acidente vascular cerebral.
- Quem repara: segundo uma revisão de 2010, a remielinização não é feita pelos oligodendrócitos maduros pré-existentes, e sim, na maioria dos casos, por novos oligodendrócitos gerados do reservatório de OPC adultos, quiescentes, distribuído pelo SNC.
- Ativação: o OPC precisa passar do estado quiescente a um fenótipo regenerativo; essa transição parece ser disparada por fatores derivados de micróglia ativada e de astrócitos, e não pela desmielinização em si, e leva à proliferação e ao recrutamento do OPC para a área desmielinizada.
- Reconstrução: o OPC se diferencia em oligodendrócito remielinizante; as etapas seguintes (contato com os axônios, expressão de genes de mielina, enrolamento e compactação da membrana) são semelhantes às do desenvolvimento.
- Marca: o achado patológico da remielinização no SNC é a presença de axônios com bainhas anormalmente finas para o seu calibre; nas lesões focais da esclerose múltipla, ela aparece como placas-sombra, de bainhas uniformemente finas.
- Limite: evidência experimental sugere fortemente que, na esclerose múltipla, a falta de OPC não é a etapa limitante, e sim a inibição do recrutamento e da diferenciação dos OPC em oligodendrócitos mielinizantes. Separadamente, a remielinização falha em grande parte na fase progressiva da doença, o que a revisão diz poder ser atribuído também à idade.
Na clínica
- Oligodendrócito (glia mielinizante do SNC) · Um mesmo oligodendrócito envia prolongamentos a vários segmentos de axônio, que podem ser do mesmo axônio ou de axônios diferentes; o resto da célula fica separado da bainha, ligado a ela por um prolongamento que volta ao corpo celular. · Poucos prolongamentos saem do corpo celular, e cada um alcança e envolve um axônio em mielina.
- Célula de Schwann (glia mielinizante do SNP) · Cada célula de Schwann envolve uma parte de um único segmento de axônio e nenhum outro; o núcleo e o citoplasma ficam na camada mais externa, num abaulamento de um lado da bainha. Deriva da crista neural. · A célula inteira envolve só um segmento, e por isso a relação é de uma célula para um segmento, ao contrário do oligodendrócito.
- Célula satélite (glia de suporte do SNP) · Envolve os corpos celulares de neurônios nos gânglios sensitivos e autonômicos e tem função de suporte, semelhante à do astrócito no SNC; o isolamento dos axônios com mielina é função da célula de Schwann. · As duas glias do SNP têm funções distintas: suporte aos corpos celulares (satélite) e isolamento dos axônios (Schwann).
- Esclerose múltipla (autoimune, SNC) · Segundo o livro-texto, os anticorpos produzidos por linfócitos marcam a mielina como algo que não deveria estar no corpo, e isso causa inflamação e destruição da mielina no sistema nervoso central; surgem múltiplas cicatrizes na substância branca do encéfalo e da medula. Os sintomas incluem déficits somáticos e autonômicos, como o controle da musculatura e da bexiga. · A resposta autoimune ataca a mielina do SNC, e o isolamento perdido deixa a sinalização mais lenta. Uma revisão descreve essa resposta como "pensada" como mediada por células T CD4+ específicas da mielina, hipótese há muito favorecida; há também a hipótese alternativa de que o processo comece em eventos dentro do próprio SNC.
- Síndrome de Guillain-Barré (autoimune, SNP) · Também resulta de reação autoimune, mas a inflamação está nos nervos periféricos; são comuns sintomas sensitivos ou déficits motores, e falhas autonômicas podem alterar o ritmo cardíaco ou derrubar a pressão em pé, causando tontura. · É uma doença desmielinizante do sistema nervoso periférico, cuja mielina é formada por células de Schwann.
- Leucodistrofia hipomielinizante (genética) · A mielina não chega a ser depositada em quantidade normal; é um distúrbio do neurodesenvolvimento que afeta a formação da bainha no SNC. · O defeito está na formação da bainha, e não na perda de uma bainha já formada; as leucodistrofias são doenças hereditárias, em geral progressivas, da substância branca do SNC.
- Leucodistrofia desmielinizante (genética) · A mielina é depositada e depois perdida; na leucodistrofia metacromática há acúmulo lisossômico de sulfatídeos, e nos nervos periféricos veem-se desmielinização segmentar e depósitos nas células de Schwann e nos macrófagos. · Perda de mielina previamente depositada, ao contrário da hipomielinização; só poucas leucodistrofias decorrem de genes de mielina ou de oligodendrócito, e muitas vêm de defeitos em astrócitos, micróglia, axônios e vasos.
- Astrócito · É em geral aceito que os astrócitos apoiam a função do oligodendrócito; os reativos na borda de lesões ativas de esclerose múltipla expressam moléculas quimiotáticas para OPC e induzem sua migração à placa, o que pode ser importante para a remielinização. Ao mesmo tempo, a cicatriz glial é barreira física e bioquímica para a remielinização. Em um modelo animal de doença desmielinizante (EAE), os OPC migravam até a margem da lesão e não conseguiam penetrá-la. · Os estudos sugerem que o resultado depende do microambiente, e que o estado de ativação do astrócito provavelmente determina se a influência sobre o oligodendrócito é permissiva ou inibitória.
- Micróglia · Em condições basais, pode promover a sobrevivência e a diferenciação dos OPC; na lesão, ativa-se, expande-se, migra e se acumula na área lesada, com papéis benéficos e prejudiciais no dano e no reparo da mielina. A remielinização começa em lesões agudas e ativas de esclerose múltipla, que têm resposta inflamatória robusta. · É a principal célula imune inata do SNC, envolvida na remoção de células moribundas e de patógenos, e o mesmo tipo celular pode ajudar ou atrapalhar conforme o contexto da lesão.
Teste-se antes de seguir
A glia que forma mielina é diferente no encéfalo e na medula e nos nervos que saem deles. Que célula forma a mielina em cada um desses dois compartimentos, e que outras glias existem no SNC?
A resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Responder na AvaliaçãoFontes (5)
- Domingues HS, Portugal CC, Socodato R, Relvas JB. Oligodendrocyte, Astrocyte, and Microglia Crosstalk in Myelin Development, Damage, and Repair. Front Cell Dev Biol. 2016;4:71.
Oligodendrocytes derive from oligodendrocyte progenitor cells (OPC), which hold the capacity to proliferate, migrate, and differentiate into myelinating oligodendrocytes.
- Kuhn S, Gritti L, Crooks D, Dombrowski Y. Oligodendrocytes in Development, Myelin Generation and Beyond. Cells. 2019;8(11):1424.
OPC are distributed throughout the CNS and represent a pool of migratory and proliferative adult progenitor cells that can differentiate into oligodendrocytes
- Bradl M, Lassmann H. Oligodendrocytes: biology and pathology. Acta Neuropathol. 2010;119(1):37-53.
Oligodendrocytes select axons with diameters above 0.2 μm [ 171 ]. The molecular cues for this recognition remain unknown.
- Betts JG, Young KA, Wise JA, Johnson E, Poe B, Kruse DH, Korol O, Johnson JE, Womble M, DeSaix P. Anatomy and Physiology 2e. Houston: OpenStax; 2022. Section 12.2, Nervous Tissue.
Myelin is a lipid-rich sheath that surrounds the axon and by doing so creates a myelin sheath that facilitates the transmission of electrical signals along the axon.
- van der Knaap MS, Bugiani M. Leukodystrophies: a proposed classification system based on pathological changes and pathogenetic mechanisms. Acta Neuropathol. 2017;134(3):351-382.
Leukodystrophies are heritable, mostly progressive encephalopathies characterized by the selective involvement of the central nervous system (CNS) white matter.
Mais resumos de Histologia
Depois de ler, use o que aprendeu
Atlas
Veja as estruturas do tema em 3D e navegue por camadas.
Caso clínico
Aplique o conteúdo numa decisão de plantão.
Exame
Interprete o resultado que fecha o raciocínio.
Avaliação
Responda as perguntas dos blocos e veja onde você está.
Tutor de IA
Tire a dúvida que o texto não resolveu.
Comece grátis: crie a conta e prove uma amostra do Atlas em 3D, do caso clínico, do exame, da avaliação e do tutor de IA. Sem cartão de crédito.
Começar grátis