Reações de hipersensibilidade: os quatro tipos, da anafilaxia à dermatite de contato
Quatro revisões abertas, uma delas diretriz da WAO: os quatro tipos de Gell e Coombs pelo mecanismo (IgE, anticorpo contra célula, imunocomplexo, célula T), com um exemplo (FPIES) a que a revisão de Hopp não aplica a classificação; a anafilaxia, dos mediadores à epinefrina intramuscular (indicada mesmo quando não há IgE); o tipo II nas células do sangue; o tipo III e o que decide o órgão atingido; a dermatite de contato do tipo IV; e as reações que se parecem com alergia, mas não seguem o mecanismo clássico (pseudoalergia, rubor da vancomicina, reação semelhante à doença do soro). Os exemplos vêm de reações a fármacos, sobretudo antibióticos. Ficam de fora as doenças clássicas dos tipos II, III e IV que não vêm de fármaco, os subtipos IVa-IVd, a alergia alimentar e a atopia, o diagnóstico laboratorial e a dose de qualquer medicamento.
Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Essencial
- O IgE específico para o alérgeno se liga a receptores Fc-épsilon-RI de mastócitos e basófilos.
- A nova exposição provoca degranulação e liberação de mediadores, entre eles a histamina e a triptase, que já estavam armazenadas nos grânulos.
- Os mediadores causam vasodilatação e aumento da permeabilidade capilar, com os sinais e sintomas típicos da anafilaxia.
- O diagnóstico se baseia sobretudo no quadro clínico; a triptase, mais estável que a histamina, pode apoiá-lo quando elevada, mas triptase normal não exclui anafilaxia; a histamina plasmática volta ao nível basal em cerca de 30 minutos do início dos sintomas.
- Toda anafilaxia, inclusive a não mediada por IgE, deve ser tratada com epinefrina (adrenalina) intramuscular, de primeira linha e dada o quanto antes; a via intravenosa não é recomendada no início (se usada, só em pacientes monitorizados); beta-2 agonistas, glicocorticoides e anti-histamínicos são de segunda linha.
- Anticorpos IgG ou IgM formam imunocomplexos com o antígeno, que pode ser um fármaco.
- Normalmente os complexos são removidos de imediato; ocasionalmente precipitam e ativam o complemento.
- Os componentes do complemento recrutam e ativam neutrófilos e macrófagos, com inflamação e lesão tecidual.
- O local do depósito dos complexos, e não a origem do antígeno, decide o conjunto de sintomas: vasos, rins e articulações dão vasculite, nefrite e artrite.
- A doença do soro é um exemplo: febre, erupção urticariforme e poliartralgia.
- A fase de sensibilização começa quando o hapteno se liga a proteínas carreadoras da pele.
- O complexo hapteno-proteína é processado por células apresentadoras, como as dendríticas dérmicas, que migram para os linfonodos regionais e ativam os linfócitos T.
- Numa nova exposição ao mesmo hapteno, a fase de elicitação ocorre em 24 a 72 horas.
- Linfócitos T CD8+ ativados, as principais células efetoras, são recrutados à pele, induzem apoptose de queratinócitos e liberam citocinas como IFN-γ e TNF-α.
- Eritema, prurido e placas escamosas ou vesículas.
Na clínica
- Tipo I (mediado por IgE) · Reação imediata: o IgE específico para o alérgeno se liga a mastócitos e, na exposição, dispara a liberação de histamina e leucotrienos, com vasodilatação e aumento da permeabilidade capilar. · O IgE específico fica ligado a receptores de mastócitos e basófilos, e a nova exposição leva à degranulação dessas células.
- Tipo II (anticorpo contra antígeno de superfície celular) · Os anticorpos se ligam a antígenos da superfície da célula e produzem citotoxicidade celular dependente de anticorpo. · O alvo é uma célula marcada por anticorpo, e a interação entre anticorpo e antígeno destrói a célula, por complemento ou por fagocitose.
- Tipo III (imunocomplexos) · Imunocomplexos se formam, depositam-se em vasos e tecidos e ativam o complemento, que libera mediadores inflamatórios. · Os complexos normalmente são removidos de imediato, mas ocasionalmente precipitam e ativam o complemento.
- Tipo IV (mediado por células T) · Os sintomas aparecem tardiamente e dependem da ativação de linfócitos T. · Ocorre quando linfócitos T ficam sensibilizados a um antígeno; o mediador é a célula T.
- Escopo da classificação · Nesta revisão, Hopp não aplica as classificações de hipersensibilidade à síndrome da enterocolite induzida por proteína alimentar (FPIES). · A FPIES é uma síndrome não mediada por IgE, aceita como um processo imunopatológico complexo.
- Plaquetas · Trombocitopenia, com sangramento: petéquias, equimoses e epistaxe. · Em antibióticos, acredita-se que o mecanismo mais provável seja por anticorpos dependentes de hapteno, embora a patogênese não esteja totalmente esclarecida: anticorpos dirigidos ao fármaco ligado à célula, ou a um componente de membrana alterado por ele, levam à destruição da plaqueta.
- Hemácias · Anemia hemolítica, que pode ocorrer quando o fármaco é reintroduzido na presença dos anticorpos que ele induziu; a cefotetana é exceção a essa exigência de exposição prévia, podendo causá-la dias após uma dose única. · A destruição é a mesma: o anticorpo reage com o antígeno e a célula é destruída por complemento ou fagocitose.
- Neutrófilos · Neutropenia, em geral com febre, calafrios e mialgias. · Os anticorpos têm como alvo os glóbulos brancos, e a apresentação clínica depende do tipo de célula envolvido.
- Pseudoalergia · Os sintomas se parecem com os da alergia e podem aparecer já na primeira dose, sem sensibilização prévia; a maioria é leve (urticária aguda), mas pode ocorrer anafilaxia, até fatal. · Em parte está ligada a um receptor dos mastócitos, o MRGPRX2, crucial para a estimulação direta do mastócito independente de IgE.
- Rubor associado à vancomicina · Pode surgir com a infusão rápida: rubor, vermelhidão e prurido na parte superior do corpo, como face e pescoço. O manejo usual do quadro típico é reduzir a velocidade de infusão, com anti-histamínico como pré-medicação em novas infusões. Sintomas graves, como falta de ar ou hipotensão, são raros, mas podem ocorrer; nesse caso trata-se de anafilaxia, mesmo sem IgE, e a conduta é a epinefrina intramuscular. · A vancomicina estimula diretamente a degranulação dos mastócitos, sem processo imunomediado.
- Reação semelhante à doença do soro · Sintomas parecidos, porém mais leves que os da doença do soro clássica; é comumente associada a antibióticos como cefalosporinas (sobretudo cefaclor), penicilinas, sulfonamidas e ciprofloxacino, e em geral basta retirar o antibiótico. · Segundo Maker, não há formação de imunocomplexos nem ativação do complemento, e o mecanismo exato não está totalmente esclarecido (haptenos ou metabólitos tóxicos às células). As fontes divergem: a tabela de Franceschini lista as reações semelhantes à doença do soro no tipo III, mediado por imunocomplexos.
Teste-se antes de seguir
Dois pacientes reagem a um antibiótico: um tem urticária poucos minutos depois da dose, o outro um exantema vários dias depois. Que componente da resposta imune explica cada reação?
A resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Responder na AvaliaçãoFontes (4)
- Maker JH, Stroup CM, Huang V, James SF. Antibiotic Hypersensitivity Mechanisms. Pharmacy (Basel). 2019;7(3):122.
The Gell and Coombs system classifies DHR by their immunologic mechanism into four categories (Type I–IV)
- Franceschini F, Bottau P, Caimmi S, Cardinale F, Crisafulli G, Liotti L, et al. Mechanisms of hypersensitivity reactions induced by drugs. Acta Biomed. 2019;90(3-S):44-51.
The classification of DHRs relies on the clinical presentation of typical symptoms and their timing, and were originally described by Gell and Coombs: namely Type I, IgE mediated reactions, Type II, antibody mediated cytotoxicity reactions, Type III, immune complex-mediated reactions, and Type IV, d…
- Hopp RJ. Hypersensitivity Reactions: An Everyday Occurrence in Pediatric Allergy Clinics. Pediatr Allergy Immunol Pulmonol. 2020;33(1):12-18.
For the purpose of this review, hypersensitivity reaction classifications are inapplicable to explain FPIES.
- Cardona V, Ansotegui IJ, Ebisawa M, El-Gamal Y, Fernandez Rivas M, Fineman S, et al. World allergy organization anaphylaxis guidance 2020. World Allergy Organ J. 2020;13(10):100472.
Although elevated levels support a diagnosis of anaphylaxis, normal levels do not exclude anaphylaxis having occurred
Onde isso cai na prática
8 casos clínicos do acervo exigem este tema. Veja onde ele decide a conduta.
Alergia medicamentosa mal rotulada e reação cutânea grave: da anamnese ao ajuste de dose renal
Clínica médica
Abrir o caso grátisFissuras e prurido nas mãos há sete meses em uma mulher de 34 anos
Dermatologia
Abrir o caso grátisCefaleia frequente desde a adolescência: consulta de reavaliação
Neurologia
Abrir o caso grátis
Mais resumos de Microbiologia e imunologia
Depois de ler, use o que aprendeu
Atlas
Veja as estruturas do tema em 3D e navegue por camadas.
Caso clínico
Aplique o conteúdo numa decisão de plantão.
Exame
Interprete o resultado que fecha o raciocínio.
Avaliação
Responda as perguntas dos blocos e veja onde você está.
Tutor de IA
Tire a dúvida que o texto não resolveu.
Comece grátis: crie a conta e prove uma amostra do Atlas em 3D, do caso clínico, do exame, da avaliação e do tutor de IA. Sem cartão de crédito.
Começar grátis