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Aula aberta · 2º período

O coração, da estrutura à clínica

O coração são duas bombas em série — a direita empurrando contra a resistência do circuito pulmonar, a esquerda contra a do sistêmico —, e a forma de cada peça segue essa função: cordas tendíneas e músculos papilares travam as valvas atrioventriculares no instante da sístole, a fossa ovalis é o ponto mais fino do septo interatrial, o septo interventricular é a única via elétrica entre átrios e ventrículos, e as valvas semilunares nascem de uma linhagem embrionária própria (o truncus arteriosus), não da parede ventricular.

IA + fontes.Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Modelo 3D do sistema estudado nesta aula
Bloco 1

Coração: câmaras, valvas e o trajeto do sangue

O coração são duas bombas em série — a direita empurrando contra a resistência do circuito pulmonar, a esquerda contra a do sistêmico —, e a forma de cada peça segue essa função: cordas tendíneas e músculos papilares travam as valvas atrioventriculares no instante da sístole, a fossa ovalis é o ponto mais fino do septo interatrial, o septo interventricular é a única via elétrica entre átrios e ventrículos, e as valvas semilunares nascem de uma linhagem embrionária própria (o truncus arteriosus), não da parede ventricular. Esta unidade percorre essas cinco peças com fonte, e declara por escrito onde a fonte para e a inferência começa.

O que é. As cúspides das valvas atrioventriculares (tricúspide, à direita; mitral, à esquerda) recebem cordas tendíneas finas que as prendem a músculos papilares nascidos da própria parede do ventrículo correspondente — 'they arise from the inner walls of the left and right ventricle and attach to mitral and tricuspid valve leaflets respectively via chordae tendinae'.

Por que importa. Quando o ventrículo contrai na sístole, os músculos papilares contraem JUNTO — não antes, não depois — e essa contração simultânea tensiona as cordas: 'when the ventricles contract during the systole, simultaneous contraction of the papillary muscles taut the chordae tendinae. This arrangement prevents prolapse as well as the inversion of the cusps of the mitral and tricuspid valves.' A corda tensionada segura a cúspide no lugar bem no momento em que a pressão ventricular está mais alta e mais empurraria a cúspide de volta para o átrio — é um freio mecânico sincronizado com a própria contração que ele existe para conter.

O que é. A fossa ovalis fica na porção inferior do septo interatrial, do lado do átrio direito, e é a única parte desse septo que forma o chamado 'septo verdadeiro' — apenas 20% da área septal inteira: 'the true interatrial septum contains the fossa ovalis and comprises only 20% of the entire septum. It is the only area through which the interatrial septum may be traversed without the risk of cardiac perforation.'

Por que importa. Ser a parte mais fina E a única atravessável sem risco de perfuração é exatamente o que faz da fossa ovalis o alvo de escolha para quem precisa atravessar o septo de propósito: 'the (limbus) fossa ovalis represents the most direct anatomical landmark for atrial septal puncture for various procedures' — cateterismo transeptal, valvuloplastia por balão, ablação por radiofrequência, isolamento de veias pulmonares. Nenhuma outra parte do septo oferece essa combinação (fina + segura), e é por isso que o restante do septo NÃO é usado para esses procedimentos.

O que é. O miocárdio é mais espesso nos ventrículos do que nos átrios — 'though it is thicker in the ventricles and thinner in the atria. This disparity is due to the differences in the generated force of contraction needed for propelling blood between the atria and the ventricles, with the ventricles requiring much more power' — e a espessura da parede aumenta quando a câmara passa a enfrentar mais pressão para vencer: 'chronically high afterloads from higher mean arterial pressures cause the left ventricular muscle to contract against greater pressures, leading to compensatory cardiomyocyte hypertrophy. The ventricular muscle wall thickens to reduce wall stress.'

Por que importa. DECLARADO: nenhuma das cinco fontes desta unidade compara, em número ou em frase direta, a espessura BASAL do ventrículo esquerdo com a do direito — a citação acima descreve hipertrofia ventricular esquerda PATOLÓGICA por hipertensão crônica, não a diferença normal entre os dois ventrículos. O que se deriva daqui é o PRINCÍPIO, não o número: parede mais espessa é resposta a mais pressão a vencer. Aplicando esse mesmo princípio à distinção que a visão geral do coração estabelece — o ventrículo direito empurra sangue para o circuito PULMONAR (via valva pulmonar e tronco pulmonar) e o esquerdo para o circuito SISTÊMICO (via valva aórtica e aorta) —, a expectativa é que a câmara que enfrenta a maior resistência crônica (o ventrículo esquerdo, contra a circulação sistêmica) tenha, também em condições basais, a parede mais espessa. É uma inferência a partir do princípio citado, não uma afirmação que alguma das cinco fontes faça por extenso — e fica marcada como tal.

O que é. O septo interventricular não é só a parede que separa os dois ventrículos — é também a única passagem elétrica entre átrios e ventrículos. Depois de cruzar o nó atrioventricular, o impulso entra nele: 'the AV bundles carrying impulses from the AV node cross the fibrous ring to enter the interventricular septum, and divides into the right and left bundles of His.'

Por que importa. Cada um dos dois ramos percorre o septo até a base dos músculos papilares correspondentes antes de se ramificar nas fibras de Purkinje: 'right bundle of His supply, the musculature of the right ventricle, and the left bundle supply the left ventricle. Each of these bundles further divides into thin fibers called Purkinje fibers at the base of papillary muscles.' Fora dessa via, o anel fibroso que separa átrios de ventrículos é eletricamente isolante — então o septo interventricular é o único corredor por onde o impulso passa de um lado do coração ao outro.

Na clínica

Quando falha. Isquemia, fibrose pós-infarto ou ruptura do músculo papilar tiram esse freio: 'any morphological changes in these muscles and loss of contractility like in myocardial infarction with muscle fibrosis or ischemia can result in a malfunction of these valves leading to regurgitation'. Sem o músculo papilar contraindo em sincronia, a cúspide perde o ponto de ancoragem tensionado e prolapsa para o átrio na sístole — regurgitação mitral ou tricúspide aguda, e a fonte é direta sobre a gravidade quando o músculo rompe de vez: 'the rupture of papillary muscles should receive immediate treatment; not doing so can be fatal'.

Quando falha. A mesma fragilidade embrionária que faz a fossa ovalis existir (fusão do septo primum com o septo secundum) é o que pode falhar e deixar um forame oval patente — canal residual entre os dois átrios. Clinicamente isso aparece como substrato de embolia paradoxal: 'most patients with cryptogenic stroke have a patent foramen ovale which serves as a channel for paradoxical emboli leading to a greater incidence of cerebrovascular accidents.'

Quando falha. Quando a pós-carga do ventrículo esquerdo sobe de forma crônica (hipertensão arterial sistêmica sustentada), a parede espessa ainda mais — hipertrofia ventricular esquerda concêntrica —, e isso tem achado de exame físico descrito na própria fonte: 'physical examination findings of left ventricular hypertrophy may include a diffuse point of maximal impulse and an S4 gallop upon cardiac apex auscultation.'

Quando falha. A porção membranosa do septo interventricular — a mesma região atravessada pelo feixe AV — é o local mais comum de comunicação interventricular congênita, isolada ou como um dos quatro achados da tetralogia de Fallot: 'tetralogy of Fallot consists of a combination of VSD of the membranous portion of the interventricular septum, stenosis of the orifice of the pulmonary artery, the aortic orifice overriding the VSD, and hypertrophy of the right ventricle.'

+ Aprofundamento
Aprofundamento

De onde vem. O truncus arteriosus (via de saída embrionária única do coração primitivo) e as cristas conotruncais que crescem em espiral dentro dele: 'the formation of the aorta and the pulmonary trunk is dependent upon the truncus arteriosus. During development, the right and left conotruncal ridges grow in a spiral, twisted fashion forming the great vessels.'

O que vem junto. Aorta ascendente — metade do truncus separada pelo septo aorticopulmonar: 'an aorticopulmonary septum will result in the separation of the Aorta and pulmonary trunk.'; Tronco pulmonar — a outra metade da mesma separação, continuação da via de saída do ventrículo direito.; Valva aórtica (semilunar) — formada pelas células mesenquimais da mesma crista conotruncal: 'this formation of the ridges is under the guidance of the combination of the mesenchymal cells that are going to create the semilunar valves (aortic and pulmonary semilunar valves).'; Valva pulmonar (semilunar) — formada pelo mesmo processo, do lado pulmonar da separação.

Teste-se antes de seguir

Uma hemácia entra no coração pela veia cava superior. Nomeie, na ordem, cada câmara e cada valva que ela atravessa até sair pela aorta.

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (5)
  1. Rich NL, Khan YS. Anatomy, Thorax, Heart Papillary Muscles. [Updated 2023 Jul 24]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-.
    “They arise from the inner walls of the left and right ventricle and attach to mitral and tricuspid valve leaflets respectively via chordae tendinae.”
  2. Oduah MTA, Sharma P, Brown KN. Anatomy, Thorax, Heart Fossa Ovalis. [Updated 2023 Jul 25]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-.
    “The fossa ovalis is a depressed structure located in the lower portion of the right atrial side of the interatrial septum.”
  3. Tran DB, Weber C, Lopez RA. Anatomy, Thorax, Heart Muscles. [Updated 2024 Jun 22]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-.
    “Myocardium is found in the walls of all 4 heart chambers, though it is thicker in the ventricles and thinner in the atria. This disparity is due to the differences in the generated force of contraction needed for propelling blood between the atria and the ventricles, with the ventricles requiring mu…”
  4. Rehman I, Rehman A. Anatomy, Thorax, Heart. [Updated 2023 Aug 28]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-.
    “The right ventricle pumps blood through the right ventricular outflow tract, across the pulmonic valve, and into the pulmonary artery that distributes it to the lungs for oxygenation.”
  5. Bamalan OA, Jozsa F, Soos MP. Anatomy, Thorax, Heart Great Vessels. [Updated 2023 Jul 25]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-.
    “The formation of the aorta and the pulmonary trunk is dependent upon the truncus arteriosus. During development, the right and left conotruncal ridges grow in a spiral, twisted fashion forming the great vessels.”
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Câmaras cardíacas em corte 3D, com rótulos
Câmaras cardíacas em corte 3D, com rótulos. Imagem adaptada (BodyParts3D, CC BY 4.0).
Valvas cardíacas vistas do plano valvar, com rótulos
Valvas cardíacas vistas do plano valvar, com rótulos. Imagem adaptada (BodyParts3D, CC BY 4.0).
Bloco 2

Semiologia cardíaca: o que o exame físico mostra nas valvopatias importantes

O exame físico de uma valvopatia importante junta ausculta, palpação do precórdio e dos pulsos e inspeção das jugulares, e a Diretriz Brasileira de Valvopatias 2020 lista o que se espera em cada lesão. Esta unidade percorre os achados da estenose mitral, da insuficiência mitral, da estenose aórtica, da insuficiência aórtica e das lesões tricúspides, e o que a ausculta sozinha não resolve. NÃO ensina a técnica de examinar o precórdio, os focos de ausculta nem a terceira e a quarta bulhas, porque nenhuma obra aberta os sustenta.

O que é. Um sopro, sozinho, é apenas um som; o que o liga a uma lesão valvar são as características que o examinador anota em torno dele.

Por que importa. Por isso, além da intensidade, o exame registra onde o sopro é mais intenso, se ele muda com a posição do paciente ou com a manobra de Valsalva, quanto dura, se a segunda bulha está presente e se as bulhas se desdobram; cada um desses dados ajuda a diferenciar um sopro de outro.

Na clínica

Quando falha. Mesmo assim, a ausculta isolada tem limite: uma revisão sistemática de estudos que compararam a ausculta com a ecocardiografia encontrou sensibilidade entre 30% e 100% e especificidade entre 28% e 100%, e concluiu que o médico não deve confiar demais só na ausculta.

Fato. Um sopro sistólico de baixa intensidade (graus I e II) costuma ser tido como inocente, mas um sopro diastólico é, como regra geral, considerado patológico qualquer que seja a intensidade.

Teste-se antes de seguir

Idoso com estenose aórtica importante. Que alteração do pulso arterial periférico e que tipo de sopro (fase do ciclo, formato e momento do pico) a diretriz lista no exame físico?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (1)
  1. Davidsen AH, Andersen S, Halvorsen PA, Schirmer H, Reierth E, Melbye H. Diagnostic accuracy of heart auscultation for detecting valve disease: a systematic review. BMJ Open. 2023;13(3):e068121.
    “In addition to murmur intensity, several clinical findings can help differentiate between murmurs: Site of maximum intensity, change in intensity with position, respiration or Valsalva’s manoeuvre, the length of the murmur, presence of the second heart sound, splitting of the heart sounds and more.”
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Bloco 3

Fisiopatologia integrada das valvopatias: da sobrecarga de pressão e de volume ao sintoma

Cada lesão valvar cobra do ventrículo uma sobrecarga própria: a estenose aórtica, de pressão, que hipertrofia o VE e leva à dispneia, à angina e à síncope; a insuficiência aórtica, de volume, que dilata o VE e eleva a pressão diastólica final. A diretriz brasileira organiza o raciocínio em cinco passos — gravidade anatômica, etiologia, sintomas, complicadores e tipo de intervenção — e a etiologia muda com a população.

  1. Hipertrofia ventricular esquerda na estenose aórtica importante
  2. Redução da complacência ventricular
  3. Curva pressão/volume do VE deslocada para cima e para a esquerda
  4. Elevação das pressões de enchimento do VE
  5. Congestão pulmonar, com dispneia
Na clínica
  • Estenose mitral reumática (país em desenvolvimento, como o Brasil) · A valvoplastia mitral por cateter-balão é o tratamento de escolha, se a anatomia valvar for favorável. · A fusão comissural é o substrato que o balão consegue abrir; já a calcificação importante das comissuras (e do aparelho subvalvar) pesa contra, porque piora a anatomia valvar e eleva o escore de Wilkins-Block.
  • Estenose mitral degenerativa (idoso, calcificação do anel) · A valvoplastia por balão não é opção terapêutica. · Não há fusão comissural, e sim calcificação do anel valvar — não há comissura para o balão abrir.
  • Estenose aórtica reumática, em paciente jovem · A evidência do implante transcateter de bioprótese aórtica não a contempla, ao contrário da etiologia degenerativa do idoso. · A grande maioria dos pacientes dos estudos de TAVI tinha etiologia degenerativa; a reumática é de faixa etária mais jovem e ficou de fora.

Fato. A primeira bulha (B1) costuma ser hiperfonética na estenose mitral importante (pode se atenuar se a valva estiver muito calcificada e pouco móvel) e hipofonética na insuficiência mitral primária importante.

+ Aprofundamento
Aprofundamento

Consequência. A sobrecarga de volume sanguíneo no VE eleva a pressão diastólica final, e a dispneia da insuficiência aórtica nasce desse aumento de pressão.

Compensação. O VE responde à sobrecarga volumétrica aumentando seus diâmetros (dilatação), mecanismo adaptativo que mantém o débito, mas que pode determinar pior prognóstico; o fármaco apenas alivia o sintoma até a intervenção.

Teste-se antes de seguir

Mulher de 74 anos, com dispneia aos esforços (CF III). O ecocardiograma mostra área valvar aórtica de 0,8 cm², gradiente médio VE/aorta de 32 mmHg e fração de ejeção do VE de 35%. Para confirmar a gravidade anatômica da estenose aórtica, qual é o exame indicado?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (1)
  1. Tarasoutchi F, Montera MW, Ramos AIO, et al. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arq Bras Cardiol. 2020;115(4):720-775.
    “Disfunção diastólica: hipertrofia ventricular esquerda ➔ redução de complacência ➔ deslocamento da curva pressão/volume ventricular para cima e para a esquerda ➔ elevação das pressões de enchimento ➔ hipertensão venocapilar pulmonar”
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Bloco 4

Fisiopatologia integrada da síndrome coronariana aguda: da placa instável aos rótulos de ECG e de troponina

A síndrome coronariana aguda nasce, em regra, da instabilização de uma placa aterosclerótica por erosão ou ruptura, com trombo oclusivo ou suboclusivo; vasospasmo, embolia, dissecção e desequilíbrios de oferta e consumo de oxigênio são outros caminhos. A isquemia avança do subendocárdio ao subepicárdio e a reperfusão pode lesar o músculo. O ECG separa SCA com e sem supra de ST; a troponina separa angina instável de infarto sem supra; e elevar troponina não basta para dizer infarto: é preciso lesão aguda mais contexto de isquemia, sem o que o nome é lesão miocárdica aguda.

  1. Uma placa aterosclerótica coronariana se instabiliza por erosão ou ruptura, e a lesão ativa as plaquetas.
  2. A ativação plaquetária leva à trombose: forma-se um trombo oclusivo ou suboclusivo sobre a placa.
  3. O trombo limita o fluxo coronariano e o miocárdio fica isquêmico. A limitação de fluxo também pode vir de vasospasmo, embolia ou dissecção coronariana, e anemia, hipertensão, taquicardia, cardiomiopatia hipertrófica e estenose aórtica alteram a oferta ou o consumo de oxigênio.
  4. A isquemia progride do subendocárdio ao subepicárdio; circulação colateral eficiente, menor consumo de oxigênio e fluxo intermitente prolongam o tempo de progressão.
  5. A função ventricular se altera junto: primeiro a disfunção diastólica, seguida ou não da disfunção sistólica.
  6. Quanto menor a duração do insulto isquêmico, menor a área de necrose; mas restabelecer a perfusão também causa algum grau de lesão do miocárdio (lesão de reperfusão), sobretudo na oclusão total.

O que é. A diretriz brasileira divide a SCA pelo ECG em dois grupos. SCACSST: dor torácica aguda com supradesnivelamento persistente do segmento ST, ou bloqueio de ramo esquerdo novo ou presumivelmente novo, condição geralmente relacionada com oclusão coronariana e necessidade de reperfusão imediata. SCASSST: dor torácica aguda sem supradesnivelamento persistente de ST, com ou sem outras alterações sugestivas de isquemia (infradesnivelamento, inversão de onda T) e até ECG normal.

Por que importa. O mecanismo de base é o mesmo, a instabilização da placa com trombo oclusivo ou suboclusivo. O ECG informa o quadro elétrico e, no supra persistente, aponta para oclusão coronariana e reperfusão imediata; o grupo sem supra cobre um espectro amplo de gravidade, e por isso o ECG sozinho não diz se houve necrose. Quem diz é o biomarcador.

O que é. Lesão miocárdica é troponina cardíaca acima do percentil 99 em pelo menos uma dosagem; é aguda se os valores sobem e/ou caem, e crônica se persistem elevados. Infarto agudo do miocárdio exige essa lesão aguda mais um contexto clínico de isquemia: sintomas, nova alteração isquêmica no ECG, nova onda Q patológica, imagem com nova alteração de contratilidade ou, só no tipo 1, trombo intracoronário.

Por que importa. A troponina sobe quando o miocárdio é lesado, qualquer que seja a causa. No IAM tipo 1 a causa é um evento coronariano, a ruptura ou erosão de placa. No tipo 2 é um desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio, sem relação direta com a aterotrombose coronariana. E há causas cardíacas (procedimentos, miocardite, arritmias, insuficiência cardíaca descompensada) e extracardíacas (choque, anemia grave, sepse, hipóxia) que lesam o músculo sem que haja isquemia detectável.

O que é. MINOCA é o infarto agudo do miocárdio sem doença arterial coronariana obstrutiva. Os critérios são: IAM, angiografia sem DAC obstrutiva (estenose menor que 50 % ou coronárias normais) e nenhuma causa não coronariana clinicamente evidente que explique o quadro agudo.

Por que importa. Sem obstrução fixa, o mecanismo é outro: disfunção coronária epicárdica (ruptura, ulceração, fissuração ou erosão de placa, ou dissecção coronária), desequilíbrio entre oferta e consumo de oxigênio (espasmo, embolia coronariana) ou disfunção endotelial (doença microvascular). A ruptura ou a erosão de placa consta da própria lista de mecanismos, ainda que a angiografia não mostre obstrução.

Na clínica

Quando falha. Dentro do grupo sem supra, a angina instável é isquemia miocárdica sem necrose, com biomarcadores negativos; o IAM sem supra (IAMSSST) é isquemia com lesão miocárdica aguda confirmada por elevação de troponina. No início do atendimento costuma ser difícil separar as duas só pela clínica, e as duas são conduzidas de forma semelhante nessa fase. Como as troponinas ficaram mais sensíveis, diminuiu o percentual de angina instável e aumentou o de IAMSSST.

Quando falha. Elevação de marcador de necrose sem isquemia detectada por quadro clínico, ECG ou imagem é lesão miocárdica aguda, e não IAM. Distinguir isquêmica de não isquêmica evita intervenção invasiva desnecessária e direciona a conduta para a outra causa. Numa revisão narrativa, o IAM tipo 2 tende a ter mortalidade maior que o tipo 1.

Quando falha. Cerca de dois terços dos pacientes com MINOCA se apresentam como IAM sem supra. A troponina elevada com coronárias sem obstrução e sem manifestação clínica de infarto define o grupo maior, TINOCA, que inclui o MINOCA (lesão isquêmica) e as lesões não isquêmicas como miocardite e síndrome de Takotsubo.

Fato. A instabilização da placa que causa SCA pode ser por erosão e não só por ruptura; a diretriz brasileira diz "erosão ou ruptura", e a imagem intracoronariana mostra, às vezes, SCA por erosão de placa em vez de ruptura ou, menos comumente, por nódulo calcificado com trombo.

Fato. Elevação aguda de troponina sem isquemia detectada por quadro clínico, ECG ou imagem se chama lesão miocárdica aguda, e não infarto; choque, anemia grave, sepse e hipóxia estão entre as causas extracardíacas.

Teste-se antes de seguir

A diretriz brasileira separa as SCA em dois grupos pelo ECG. Quais são, o que define o grupo com supra persistente de ST (incluindo o bloqueio de ramo), e que conduta imediata essa condição geralmente pede?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (2)
  1. Nicolau JC, Feitosa Filho G, Petriz JL, et al. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Angina Instável e Infarto Agudo do Miocárdio sem Supradesnível do Segmento ST - 2021. Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):181-264.
    “A principal característica fisiopatológica da SCA é a instabilização da placa aterosclerótica, envolvendo erosão ou ruptura e subsequente formação de trombo oclusivo ou suboclusivo.”
  2. Bergmark BA, Mathenge N, Merlini PA, Lawrence-Wright MB, Giugliano RP. Acute coronary syndromes. Lancet. 2022;399(10332):1347-1358.
    “Type 2 myocardial infarction, which results from myocardial oxygen supply versus demand mismatch unrelated to acute atherothrombosis, tends to have a higher mortality rate than Type 1 myocardial infarction.”
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Bloco 5

Fisiopatologia integrada da insuficiência cardíaca

A unidade percorre a insuficiência cardíaca do evento índice à ativação neuro-hormonal, da retenção renal de sal e água ao remodelamento do ventrículo e ao círculo vicioso, e relaciona congestão a montante, hipoperfusão a jusante e a geometria do coração com o fenótipo de fração de ejeção reduzida ou preservada. Ensina também o limite do modelo neuro-hormonal. Não recomenda nenhuma conduta clínica.

  1. Um evento índice reduz a função de bomba do coração: pode ser uma lesão aguda, como um infarto do miocárdio, uma sobrecarga hemodinâmica de longa data ou uma variante genética que compromete a contração.
  2. Os barorreceptores arteriais periféricos interpretam a queda do bombeamento como «subenchimento» da circulação, e a atividade barorreceptora diminui.
  3. Sem o freio barorreceptor há retirada do tônus parassimpático e aumento reflexo do tônus simpático: aumentam a frequência cardíaca e a contratilidade e há vasoconstrição periférica.
  4. No rim, a maior atividade simpática reduz o fluxo ao aparelho justaglomerular e libera renina; a angiotensina II e a aldosterona (e a vasopressina) fazem o rim reter sal e água.
  5. No curto prazo, essas respostas mantêm a homeostase cardiovascular.
  6. Quando sustentadas, o tônus venoso e a vasoconstrição elevam a pressão de enchimento e a pós-carga, favorecem o remodelamento adverso do ventrículo esquerdo e pioram o desempenho de bomba, o que reforça a própria ativação neuro-hormonal (círculo vicioso).
  1. Lesão aguda ou crônica e sobrecarga de volume ou de pressão do coração iniciam alterações estruturais; a ativação neuro-hormonal, as alterações hemodinâmicas e a inflamação sistêmica atuam como moduladores.
  2. A norepinefrina e a angiotensina II, em concentrações fisiopatologicamente relevantes, bastam para induzir necrose de cardiomiócitos; o coração adulto regenera muito pouco, de modo que a perda progressiva de miócitos prejudica a função.
  3. A ativação do SRAA é um estímulo potente de fibrose miocárdica, e a matriz extracelular se desorganiza: a expressão de MMP-9 aumenta e a de TIMP-1 e TIMP-3 diminui.
  4. A perda de miócitos e a matriz alterada resultam em remodelamento adverso do ventrículo esquerdo: dilatação da câmara, afinamento da parede e maior esfericidade.
  5. A tensão de parede aumenta e a perfusão subendocárdica diminui, o que piora ainda mais a função cardíaca (círculo vicioso).

O que é. A disfunção de um lado do coração, por sobrecarga de volume ou de pressão, eleva a pressão no território que o antecede (a montante) e reduz a circulação que ele abastece (a jusante).

Por que importa. Quando o ventrículo esquerdo falha, a pressão sobe no território que o antecede: aumenta a pressão pulmonar (falência retrógrada, com elevação da pressão capilar pulmonar encunhada) e ocorre congestão pulmonar com transudação de líquido. A jusante, a circulação periférica fica reduzida (falência anterógrada). Com a ativação neuro-hormonal crônica, a retenção de volume soma congestão hepática, ascite e edema, e a vasoconstrição periférica e a taquicardia em repouso acompanham a piora da função cardiorrenal.

O que é. O miócito responde ao tipo de sobrecarga: o aumento do volume ventricular eleva o estresse diastólico da parede e acrescenta sarcômeros em série (miócitos mais longos, câmara dilatada: hipertrofia excêntrica); o aumento da pressão eleva o estresse sistólico e acrescenta sarcômeros em paralelo (miócitos mais largos: hipertrofia concêntrica).

Por que importa. Na IC com fração de ejeção reduzida, a perda de cardiomiócitos (infarto, mutação, miocardite, sobrecarga valvar) causa disfunção sistólica com remodelamento excêntrico, dilatação da câmara e, muitas vezes, sobrecarga de volume. Na IC com fração de ejeção preservada, o ventrículo relaxa e enche mal, é mais rígido, a pressão de enchimento sobe e o coração costuma mostrar remodelamento concêntrico e/ou hipertrofia, com sobrecarga de pressão. O tipo de sobrecarga e a geometria tendem a acompanhar o fenótipo, mas não o definem sozinhos: a fonte descreve também o padrão misto, e a fisiopatologia detalhada da IC com fração de ejeção preservada não é ensinada aqui.

Na clínica

Quando falha. O lado esquerdo produz dispneia e taquipneia com estertores pulmonares (congestão pulmonar) e, pela hipoperfusão, disfunção renal, má perfusão periférica e sinais de caquexia cardíaca. Na retenção crônica de volume aparecem congestão hepática, ascite e edema de tornozelo e pré-tibial. Como quase todos os órgãos são afetados, a insuficiência cardíaca é uma doença sistêmica, e há ainda a insuficiência de alto débito, em que o débito cardíaco não acompanha a demanda de oxigênio (por exemplo, na anemia).

Quando falha. O padrão excêntrico, de sobrecarga de volume, aparece com infarto extenso da parede anterior e regurgitação mitral. O padrão concêntrico, de sobrecarga de pressão, aparece com estenose aórtica e com hipertensão, e costuma acompanhar a IC com FE preservada, mais frequente em pacientes idosos, mulheres e obesos, com hipertensão ou fibrilação atrial. A hipertensão é, portanto, um contexto dos dois fenótipos: a fonte também a cita entre os contextos da IC com FE reduzida quando não é controlada, e os padrões podem coexistir (padrão misto).

+ Aprofundamento
Aprofundamento

Consequência. A ativação neuro-hormonal sustentada é tóxica para o coração e para a circulação: a norepinefrina, a angiotensina II e a aldosterona, nos níveis do coração insuficiente, provocam necrose e apoptose de miócitos, fibrose, dessensibilização do receptor β-adrenérgico, aumento da pré-carga e da pós-carga e, assim, piora do desempenho de bomba. O grau da ativação acompanha a gravidade da doença e o prognóstico, e os autores afirmam que ela não é só marcador de gravidade, mas também medeia a piora. O limite da explicação também deve ser dito: os próprios autores concluem que o modelo neuro-hormonal não explica totalmente a progressão da doença, e que focar diretamente nos mecanismos biológicos do remodelamento ventricular pode trazer novas ideias sobre a progressão.

Compensação. No curto prazo a mesma ativação é compensatória: o simpático e o SRAA aumentam a frequência, a contratilidade e a retenção de sal e água e vasoconstringem a periferia, o que mantém o débito e a pressão.

Consequência. Na insuficiência cardíaca ocorre resistência periférica aos peptídeos natriuréticos; como o SRAA permanece sem oposição, a vasoconstrição e a sobrecarga de volume se mantêm, mesmo com o peptídeo sendo produzido.

Compensação. O estiramento do miocárdio (de volume ou de pressão) libera peptídeos natriuréticos dos cardiomiócitos, que produzem vasodilatação, diurese e natriurese e inibem o SRAA e a ativação simpática, isto é, descarregam funcionalmente o coração. Seus níveis aumentam como medida de disfunção celular.

Teste-se antes de seguir

Como se define a insuficiência cardíaca, e por que uma ecocardiografia com disfunção ventricular, sozinha, não basta para dizer que o paciente tem insuficiência cardíaca?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (2)
  1. Hartupee J, Mann DL. Neurohormonal activation in heart failure with reduced ejection fraction. Nat Rev Cardiol. 2017;14(1):30-38.
    “Heart failure with reduced ejection fraction (HFrEF) classically develops after an ‘index event’ that reduces cardiac pump function.”
  2. Schwinger RHG. Pathophysiology of heart failure. Cardiovasc Diagn Ther. 2021;11(1):263-276.
    “Following an initial event which may occur acutely (e.g., myocardial infarction) or chronically (e.g., hypertension) compensatory mechanisms will be activated but fail to restore adequate heart function and perfusion of the peripheral organs.”
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Bloco 6

Pressão arterial e choque circulatório: o produto DC x RVP, a compensação que esconde a hipoperfusão e a meta pressórica que muda por paciente

Três obras de nível diretriz ou consenso (Diretrizes Brasileiras de Hipertensão 2020, consenso da ESICM 2014 e Surviving Sepsis Campaign 2021): a pressão arterial como produto do débito cardíaco pela resistência vascular periférica e como a emergência hipertensiva nasce da perda da autorregulação; os quatro padrões de choque e como separá-los pelo débito, pelas pressões e pelos volumes; a vasoconstrição compensatória que mantém a pressão enquanto a perfusão já caiu, e por isso a hipotensão não é requisito para o diagnóstico; a meta de pressão que se individualiza (septicemia, hipertenso prévio, sangramento não controlado, choque cardiogênico); e três cenários em que o tamponamento barorreflexo falha ou é alterado (idoso, cocaína, betabloqueador). Ficam de fora a fisiologia fina do barorreflexo e do sistema renina-angiotensina-aldosterona (sem obra aberta), as classes de choque hemorrágico, o manejo do choque cardiogênico, a anafilaxia, o choque neurogênico, as doses de vasopressores e o tratamento farmacológico da emergência hipertensiva.

  1. A pressão arterial sistêmica é o produto do débito cardíaco pela resistência vascular periférica; por isso, uma elevação aguda da PA decorre de alteração em uma dessas duas variáveis.
  2. Aumento do volume intravascular, aumento da resistência vascular periférica, produção reduzida de vasodilatadores endógenos ou ativação de sistemas vasoconstritores podem precipitar maior vasorreatividade.
  3. A autorregulação tissular é suplantada, sobretudo nos leitos vasculares cerebral e renal, e surge isquemia local.
  4. A isquemia local desencadeia um círculo vicioso de vasoconstrição, lesão endotelial e ativação plaquetária, da coagulação e do sistema imune, com necrose fibrinoide de arteríolas e isquemia em órgãos-alvo.
  5. Nos hipertensos crônicos a curva de autorregulação está deslocada para a direita: o nível de PA atingido e a velocidade da elevação importam, e uma redução agressiva da PA no tratamento predispõe à isquemia tissular.
  6. Ainda assim, a emergência hipertensiva exige redução rápida e gradual da PA, em minutos a horas e com medicamento intravenoso, para impedir a progressão da lesão de órgão-alvo: a cautela é com o excesso e a velocidade da queda, não um motivo para tratar com lentidão.
  1. O choque é uma insuficiência circulatória aguda e generalizada, que resulta de um ou mais mecanismos: perda de volume, falha da bomba, obstrução ou perda do tônus vascular.
  2. A queda do débito cardíaco se associa a vasoconstrição importante, com menor perfusão periférica, para manter a pressão arterial.
  3. Por isso a pressão pode estar preservada enquanto a perfusão e a oxigenação dos tecidos já estão significativamente reduzidas; a hipotensão não é requisito para definir choque.
  4. A hipoperfusão aparece em janelas clínicas: pele (fria, úmida e pálida ou cianótica, nos estados de baixo fluxo; no distributivo hipercinético o quadro cutâneo pode ser outro), diurese diminuída e alteração do estado mental.
  5. O resultado é a disoxia celular, com elevação do lactato sanguíneo.
Na clínica
  • Choque hipovolêmico · Pressões e volumes baixos; o débito cardíaco é baixo. · Há queda do retorno venoso por perda de volume circulante, por perda interna ou externa de fluidos.
  • Choque cardiogênico · Débito cardíaco baixo, com pressões e volumes aumentados. · A bomba falha por perda de contratilidade (isquemia, infarto, miopatia, miocardite) ou por arritmia importante, como taquicardia ventricular ou bloqueio atrioventricular de alto grau.
  • Choque obstrutivo · Débito cardíaco baixo; pressão na artéria pulmonar aumentada e cavidades direitas dilatadas. No tamponamento, todas as cavidades são comprimidas: as pressões intracardíacas sobem e os volumes ficam pequenos. · Há uma obstrução ao fluxo, por embolia pulmonar, pneumotórax hipertensivo ou tamponamento cardíaco.
  • Choque distributivo · É o padrão de estado hipercinético, em geral com débito cardíaco elevado, ao contrário dos outros três. · Há perda do tônus vascular, com má distribuição do fluxo sanguíneo, por sepse, anafilaxia ou lesão medular.
  • Choque séptico em vasopressor, sem hipertensão prévia conhecida · A meta inicial de ressuscitação é uma pressão arterial média de 65 mmHg. · Uma PAM em torno de 65 mmHg parece suficiente na maioria dos pacientes com choque séptico; metas mais altas não mostraram vantagem de mortalidade.
  • Choque séptico em paciente com hipertensão arterial prévia · O consenso de 2014 sugere uma PAM mais alta, o que também vale para quem melhora com pressão mais alta; a Surviving Sepsis Campaign 2021 mantém a meta inicial de 65 mmHg para quem precisa de vasopressor. · No ensaio que comparou as metas, a subanálise de pacientes com hipertensão crônica mostrou menos terapia renal substitutiva com PAM mais alta, mas sem diferença de mortalidade e com maior risco de fibrilação atrial; por isso a individualização para o hipertenso é sugestão, não regra.
  • Sangramento não controlado, sem traumatismo craniano grave · Sugere-se tolerar uma pressão mais baixa, e evitar ressuscitação volêmica agressiva em trauma penetrante até o sangramento ser estancado cirurgicamente. · O consenso recomenda evitar a ressuscitação agressiva e tolerar a hipotensão em trauma penetrante até o sangramento ser contido cirurgicamente.
  • Choque cardiogênico · Não há meta numérica recomendada; a pressão é individualizada. · Nenhum estudo clínico investigou o nível ótimo de pressão arterial, e as diretrizes deixaram de recomendar um alvo.
  • Idoso · É mais propenso a hipotensão ortostática e a hipotensão pós-prandial. · Tem menor resposta dos barorreceptores à hipotensão.
  • Intoxicação por cocaína, com função barorreceptora intacta · A descarga simpática central, da qual depende a vasoconstrição induzida pela cocaína, fica suprimida. · Com o barorreflexo funcionando, o tamponamento contém a descarga simpática e a vasoconstrição pela cocaína não se instala em excesso.
  • Intoxicação por cocaína, com tamponamento barorreflexo prejudicado · Ocorrem vasoconstrição adrenérgica excessiva e crise hipertensiva. · Sem o tamponamento barorreflexo, a descarga simpática não é contida.
  • Início do tratamento com betabloqueador · Há diminuição inicial do débito cardíaco e da secreção de renina. · A ação é complexa: com o tempo ocorre readaptação dos barorreceptores e diminuição das catecolaminas nas sinapses nervosas.
Teste-se antes de seguir

Se a pressão arterial sistêmica é o produto de duas variáveis, quais são elas, e que tipo de alteração pode elevar a PA de forma aguda?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (3)
  1. Cecconi M, De Backer D, Antonelli M, Beale R, Bakker J, Hofer C, et al. Consensus on circulatory shock and hemodynamic monitoring. Task force of the European Society of Intensive Care Medicine. Intensive Care Med. 2014;40(12):1795-1815.
    “Shock can be associated with four underlying patterns, of which three are associated with a low flow state (hypovolemic, cardiogenic, obstructive) and one is associated with a hyperkinetic state (distributive).”
  2. Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, Mota-Gomes MA, Brandão AA, Feitosa ADM, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial - 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658.
    “Tendo em vista que a PA sistêmica é resultante do produto do débito cardíaco (DC) pela resistência vascular periférica (RVP), elevações agudas da PA podem resultar de alterações nessas variáveis.”
  3. Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, Antonelli M, Coopersmith CM, French C, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2021. Intensive Care Med. 2021;47(11):1181-1247.
    “the panel recommends targeting a MAP of 65 mm Hg in the initial resuscitation of patients with septic shock who require vasopressors.”
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Bloco 7

Semiologia vascular: pulsos, pressão arterial e sinais de perfusão

A pressão arterial só vale se medida com técnica: repouso, manguito do tamanho do braço, os dois braços na primeira visita, fases de Korotkoff e, na fibrilação atrial, o método auscultatório. O pulso se palpa nas artérias superficiais, e o femoral diminuído num hipertenso levanta coartação ou doença da aorta. À beira do leito, temperatura das extremidades, livedo e tempo de enchimento capilar são sinais de perfusão.

O que é. Nos membros inferiores o pulso se palpa nas artérias femorais (na coxa), poplíteas (atrás dos joelhos), tibiais posteriores (perto da região tarsal medial) e dorsais do pé.

Por que importa. O pulso é a expansão e o retorno elástico da parede arterial depois de cada ejeção do coração, e se palpa com as pontas dos dedos sobre uma artéria que corre perto da superfície, pressionando de leve; o efeito diminui com a distância do coração.

Na clínica

Fato. Na primeira visita a PA se mede nos dois braços, e uma diferença de PAS maior que 15 mmHg entre eles indica maior risco cardiovascular, possivelmente por doença vascular ateromatosa, e manda fazer as medidas seguintes no braço de maior valor.

Fato. Pulso femoral diminuído no exame de um hipertenso sugere coartação de aorta, doença da aorta ou de seus ramos, e na suspeita de coartação a PA deve ser medida também nos membros inferiores, com manguito apropriado à circunferência da coxa.

Fato. Em paciente com fibrilação atrial a diretriz prefere o método auscultatório, porque a maioria dos aparelhos automáticos não foi validada nessa arritmia e registra a onda sistólica individual mais alta em vez da média de vários ciclos, o que superestima a PA.

Fato. No choque séptico do adulto, quando não há monitorização hemodinâmica avançada, a temperatura das extremidades, o livedo e o tempo de enchimento capilar são sinais de perfusão validados e reprodutíveis, e a Surviving Sepsis Campaign sugere (recomendação fraca, evidência de baixa qualidade) usar o tempo de enchimento capilar para guiar a ressuscitação como adjuvante de outras medidas.

Fato. A pressão de pulso é a diferença entre a sistólica e a diastólica, e um valor abaixo de 25% da sistólica é descrito como baixo ou estreito, como pode ocorrer com volume sistólico baixo na insuficiência cardíaca, na estenose aórtica ou na perda sanguínea importante.

Quando falha. Pulso femoral diminuído num hipertenso sugere coartação de aorta, doença da aorta ou de seus ramos; na suspeita de coartação mede-se a PA também nas pernas, com manguito de coxa.

Teste-se antes de seguir

Antes de auscultar, o examinador palpa o pulso enquanto infla o manguito. Para que serve essa palpação e até onde se infla depois dela?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (3)
  1. Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arq Bras Cardiol. 2021;116(3):516-658.
    “A PA deve ser inicialmente medida nos dois braços e idealmente estabelecida por medição simultânea.”
  2. Evans L, Rhodes A, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: international guidelines for management of sepsis and septic shock 2021. Intensive Care Med. 2021;47(11):1181-1247.
    “When advanced haemodynamic monitoring is not available, alternative measures of organ perfusion may be used to evaluate the effectiveness and safety of volume administration.”
  3. Betts JG, Young KA, Wise JA, Johnson E, Poe B, Kruse DH, Korol O, Johnson JE, Womble M, DeSaix P. Anatomy and Physiology 2e. Houston: OpenStax; 2022. Section 20.2, Blood Flow, Blood Pressure, and Resistance.
    “the difference between the systolic pressure and the diastolic pressure is the pulse pressure”
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Cinco portas para o app

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