Mecanismo da lesão renal aguda versus doença renal crônica: do insulto ao reparo, e da definição ao seguimento
Em 30 segundos
A unidade conta como um insulto isquêmico, séptico ou tóxico leva o túbulo renal a perder a filtração, como o reparo pode terminar em recuperação ou em fibrose, e por que o rim crônico é terreno para novos episódios agudos.
Escopo e método deste resumo
A unidade conta como um insulto isquêmico, séptico ou tóxico leva o túbulo renal a perder a filtração, como o reparo pode terminar em recuperação ou em fibrose, e por que o rim crônico é terreno para novos episódios agudos. Depois, a avaliação trabalha as definições, a classificação e o seguimento nas diretrizes KDIGO e do Ministério da Saúde. Não recomenda nenhuma conduta clínica.
Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Essencial
- Choque, sepse, cirurgia e agentes nefrotóxicos, entre muitos outros insultos, convergem numa via comum de isquemia-reperfusão, com hipóxia renal localizada ou generalizada; em muitos casos a progressão da falência renal decorre de um insulto secundário, mais comumente uma hipoperfusão intrarrenal transitória, regional ou generalizada, ou a sepse.
- A isquemia-reperfusão e a ativação de vias inflamatórias lesam os túbulos, sobretudo na faixa externa da medula externa, onde já existe hipóxia basal em condições normais; as células do segmento S3 do túbulo proximal têm alta atividade metabólica e baixa oferta de oxigênio vinda dos capilares.
- A produção alterada de prostaglandinas e de espécies reativas de oxigênio, por lesão dos túbulos vizinhos, piora a oferta de oxigênio ao tecido e gera um fenômeno de «não refluxo» local, em que a microvasculatura ocluída amplifica a lesão inicial.
- Segundo a revisão (que se apoia muito em modelos experimentais), as células tubulares morrem (apoptose e necrose) e se destacam para a luz, o que desnuda áreas do segmento S3.
- A falha da função tubular, a obstrução estrutural do fluxo e a chegada distal de líquido rico em solutos ativam o feedback tubuloglomerular, que inibe ainda mais a filtração glomerular.
- Inicia-se a resposta de reparo: células tubulares sobreviventes desdiferenciam-se e proliferam para repor as perdidas, e a perda funcional pode ser transitória.
- No reparo adaptativo, ao longo de dias, as células tubulares e os macrófagos recrutados removem os detritos e as células epiteliais se desdiferenciam e proliferam para restaurar a integridade do epitélio.
- Diante de insultos graves, repetidos ou genotóxicos, células tubulares podem parar em G2/M e liberar citocinas e fatores de crescimento que mantêm leucócitos e inflamação no rim; em modelos animais, a JNK permanece ativa por semanas.
- Estímulos de lesão e pró-inflamatórios fazem os pericitos se soltarem do endotélio, o que resulta em rarefação microvascular e em deposição progressiva de colágeno I por miofibroblastos originados de pericitos ativados.
- Em rato, a densidade de capilares peritubulares cai de forma duradoura depois de uma lesão aparentemente recuperada, antes de haver fibrose visível; a hipóxia renal é achado comum de lesões crônicas e provavelmente contribui para a progressão.
- A fibrose pode continuar depois que a lesão aguda se resolve, presumivelmente porque as células fibrogênicas não voltam ao estado de repouso.
- O reparo mal-adaptativo e incompleto leva à fibrose e, por fim, à doença renal crônica; o envelhecimento sensibiliza as células tubulares à parada em G2/M, o que é uma explicação potencial para o maior risco de progressão em idosos.
A doença renal crônica preexistente é o principal fator de risco para lesão renal aguda (os autores citam um aumento de risco de até cerca de 10 vezes). O rim do idoso, com a queda da TFG que ocorre na maioria das pessoas com mais de 50 anos e a perda da reserva renal, também é mais suscetível.
Nos pacientes com doença renal crônica, quedas transitórias da função, compatíveis com lesão aguda, podem ocorrer por falha da autorregulação, vasodilatação anormal, suscetibilidade a anti-hipertensivos e efeitos colaterais de medicamentos (como diuréticos, inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona e nefrotoxinas). A relação é de mão dupla: a lesão aguda também é fator de risco para a doença crônica, e as duas são fatores de risco para doença cardiovascular.
A progressão da doença renal envolve mecanismos em cascata: hipertensão sistêmica e intrarrenal, hiperfiltração glomerular, hipertrofia e atrofia tubulares, fibrose tubulointersticial, esclerose glomerular progressiva, arteriosclerose, suscetibilidade genética e respostas humorais desordenadas. Os autores ressalvam que, em humanos, os mecanismos são incompletamente conhecidos e que as vias causais vêm de estudos em animais.
A combinação de insuficiência vascular, hipertensão glomerular e fibrose intersticial é um conjunto de mecanismos que se autorreforçam, perpetuam a lesão, freiam o reparo e causam dano tecidual progressivo; a lesão endotelial e a perda de vasos (rarefação) geram ciclos viciosos de hipóxia e isquemia que afetam a função das células renais.
Na clínica
O quadro de lesão aguda sobreposta à doença crônica (acute-on-chronic) é reconhecido, porém pouco avaliado. A insuficiência cardíaca congestiva, frequente tanto na lesão aguda quanto na doença crônica, pode se associar a mudanças agudas da função renal. Múltiplos episódios de lesão aguda predizem o desenvolvimento de doença crônica.
A diretriz brasileira entende a progressão da DRC como a perda progressiva da função renal, avaliada pela TFG, e lista entre os preditores de pior prognóstico para perda de função a pressão arterial, a glicemia e o colesterol mal controlados. Ela liga a perda funcional a desfechos que não são renais, como a morbidade cardiovascular.
Abrir o aprofundamento
Aprofundamento
A recuperação funcional aparente pode esconder dano persistente. A recuperação costuma ser avaliada pela creatinina sérica, que os autores chamam de ferramenta insensível; os sobreviventes de lesão renal aguda mantêm um risco persistentemente aumentado de doença renal crônica progressiva, de proteinúria e de mortalidade cardiovascular; e, em rato, a densidade capilar peritubular permanece reduzida depois de uma lesão aparentemente recuperada, antes de haver fibrose visível.
No reparo adaptativo a perda de função pode ser transitória e o rim pode voltar à função normal apesar de uma lesão aparentemente grave, repondo as células tubulares perdidas por desdiferenciação e proliferação de células sobreviventes. Essa recuperação completa é menos provável com o envelhecimento.
Teste-se antes de seguir
O prontuário de um paciente internado diz apenas «creatinina subiu». Que critérios o KDIGO 2012 usa para dizer que há lesão renal aguda?
A resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Responder na AvaliaçãoFontes (3)
- Ferenbach DA, Bonventre JV. Mechanisms of maladaptive repair after AKI leading to accelerated kidney ageing and CKD. Nat Rev Nephrol. 2015;11(5):264-276.
In many cases, progression of kidney failure is not due to worsening of primary renal disease, but rather a secondary insult, most commonly associated with transient intrarenal regional or generalized hypoperfusion or sepsis.
- Chawla LS, Eggers PW, Star RA, Kimmel PL. Acute kidney injury and chronic kidney disease as interconnected syndromes. N Engl J Med. 2014;371(1):58-66.
Fibrosis may continue after acute kidney injury resolves, presumably because fibrogenic cells do not return to their resting state
- Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Clínicas para o Cuidado ao Paciente com Doença Renal Crônica – DRC no Sistema Único de Saúde. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.
Progressão da DRC é entendida como a perda progressiva da função renal, avaliada por meio da TFG.
Onde isso cai na prática
2 casos clínicos do acervo exigem este tema. Veja onde ele decide a conduta.
Creatinina em elevação e pouca urina no terceiro dia de internação em mulher de 72 anos
Clínica médica
Abrir o caso grátisFebre, rigidez e confusão em homem de 31 anos em uso de psicofármacos
Psiquiatria
Abrir o caso grátis
Mais resumos de Renal
Depois de ler, use o que aprendeu
Atlas
Veja as estruturas do tema em 3D e navegue por camadas.
Caso clínico
Aplique o conteúdo numa decisão de plantão.
Exame
Interprete o resultado que fecha o raciocínio.
Avaliação
Responda as perguntas dos blocos e veja onde você está.
Tutor de IA
Tire a dúvida que o texto não resolveu.
Comece grátis: crie a conta e prove uma amostra do Atlas em 3D, do caso clínico, do exame, da avaliação e do tutor de IA. Sem cartão de crédito.
Começar grátis