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Aula aberta · 3º período

Sistema nervoso: do exame básico às grandes síndromes

O reflexo pupilar é um arco com um ramo que traz a luz e outro que manda a resposta às duas pupilas, e o exame localiza a lesão pelo que cada pupila faz.

IA + fontes.Material educacional escrito com apoio de IA e conferido por revisão automatizada, sem revisão médica nomeada. Não substitui o livro-texto nem orientação clínica.
Modelo 3D do sistema estudado nesta aula
Bloco 1

Semiologia neurológica básica: reflexos, neurônio motor e nervos cranianos

O reflexo pupilar é um arco com um ramo que traz a luz e outro que manda a resposta às duas pupilas, e o exame localiza a lesão pelo que cada pupila faz. O reflexo tendinoso é um arco curto que termina no mesmo neurônio motor que serve à via voluntária, e por isso o exame separa lesão do neurônio motor inferior da do superior. A força se grada de 0 a 5, e os reflexos de tronco têm técnica e precauções próprias, como evitar o oculocefálico quando a coluna cervical é suspeita.

  1. A luz atinge a retina e células ganglionares fotossensíveis mandam o sinal pelo nervo óptico.
  2. O sinal chega ao núcleo pré-tectal, na parte superior do mesencéfalo.
  3. Do núcleo pré-tectal, neurônios projetam para os núcleos de Edinger–Westphal do complexo oculomotor, nos dois lados do mesencéfalo.
  4. Cada núcleo de Edinger–Westphal origina fibras parassimpáticas pré-ganglionares que seguem pelo nervo oculomotor até o gânglio ciliar, na órbita.
  5. Do gânglio ciliar, fibras pós-ganglionares chegam à íris e liberam acetilcolina nas fibras circulares, que estreitam a pupila e reduzem a luz que alcança a retina.

O que é. O reflexo de estiramento é um arco curto: o fuso muscular manda o sinal pela raiz dorsal e a fibra faz sinapse direta no neurônio motor do corno ventral, que contrai o músculo. Esse mesmo neurônio do corno ventral é a segunda célula da via voluntária que desce do córtex motor pelo trato corticoespinal.

Por que importa. Como os dois sistemas convergem no mesmo neurônio motor do corno ventral (o neurônio motor inferior), o comando de um músculo pode ser lesado de duas maneiras diferentes: na célula final, que é compartilhada pelo arco e pela via voluntária, ou na célula que desce do córtex (neurônio motor superior), que deixa o arco intacto mas retira dele a modulação que vem de cima. Por isso o exame pergunta, em cada músculo, se o arco ainda responde e o que a modulação descendente faz com a resposta.

Na clínica

Quando falha. Ao exame, um reflexo presente indica que o neurônio motor inferior está funcionando; a influência do trato corticoespinal aparece no reflexo plantar, em que o sinal de Babinski negativo é a resposta esperada no adulto.

Teste-se antes de seguir

Num paciente, a lanterna no olho direito não faz constringir nenhuma das duas pupilas, mas a mesma lanterna no olho esquerdo faz as duas constringirem. Que estrutura está comprometida, de que lado, e o que a resposta ao iluminar o olho esquerdo permite excluir?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (2)
  1. Betts JG, Young KA, Wise JA, Johnson E, Poe B, Kruse DH, Korol O, Johnson JE, Womble M, DeSaix P. Anatomy and Physiology 2e. Houston: OpenStax; 2022. Section 16.3, The Cranial Nerve Exam.
    “When light hits the retina, specialized photosensitive ganglion cells send a signal along the optic nerve to the pretectal nucleus in the superior midbrain.”
  2. Betts JG, Young KA, Wise JA, Johnson E, Poe B, Kruse DH, Korol O, Johnson JE, Womble M, DeSaix P. Anatomy and Physiology 2e. Houston: OpenStax; 2022. Section 16.4, The Sensory and Motor Exams.
    “The fiber synapses directly on the ventral horn motor neuron that activates the muscle, causing contraction.”
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Bloco 2

Nível de consciência e coma: de onde vem a perda da consciência e como o exame separa lesão de tronco, atividade medular e confundidores

Quatro obras sustentam a unidade: a Resolução CFM de 2017 (norma brasileira, usada só nas partes do exame clínico e dos confundidores), o consenso ERC/ESICM 2014, a coorte de Schmidt 2019 e a revisão da Escala de Coma de Glasgow de Andraos 2025. Ela cobre as duas famílias de causa do coma, a coexistência de causas, o que cada componente do Glasgow sonda e o exame em si: o estímulo que define o coma, a resposta supraespinhal contra a atividade medular, os cinco reflexos de tronco com seus cuidados, o corte do escore, a nota motora e os confundidores que fazem o exame mentir (hipotermia, sedativos). Ficam de fora a tabela completa do Glasgow, as síndromes de herniação, a fisiologia fina do sistema ativador, o tratamento das causas, a neuroimagem, o eletroencefalograma e o diagnóstico de morte encefálica.

  1. As causas de coma de etiologia indeterminada dividem-se, em linhas gerais, em doenças intracranianas que afetam de forma focal o sistema ativador reticular ascendente e doenças principalmente extracranianas que afetam as estruturas encefálicas de forma difusa.
  2. Um terceiro grupo reúne doenças cerebrais primárias sem lesão focal aguda, como as síndromes epilépticas, e os simuladores de coma: distúrbios psiquiátricos (mutismo acinético, estado dissociativo) e paralisia neuromuscular de doenças neurodegenerativas.
  3. Essas categorias não se excluem: o mesmo paciente pode ter mais de uma patologia que, sozinha, explicaria o coma, como uma intoxicação com uma hemorragia intracraniana, ou um infarto cerebral com hipoglicemia.
  4. Por isso a investigação corre o risco de ser encerrada cedo demais, assim que a primeira patologia explicativa aparece, e os autores defendem uma rotina padronizada disparada pelo sintoma coma, e não por um diagnóstico suspeito, e completada mesmo quando a explicação inicial parece evidente.

O que é. A abertura ocular, primeiro componente da Escala de Coma de Glasgow, sonda principalmente o sistema ativador reticular ascendente, no tronco encefálico, que sustenta o estado de alerta e a vigília. A resposta verbal depende de várias regiões do encéfalo, incluindo as áreas de Broca e de Wernicke, e de sua conexão com o tronco. A resposta motora avalia a integridade das vias motoras centrais e periféricas.

Por que importa. Como cada componente depende de estruturas diferentes, o padrão entre eles localiza o déficit: abrir os olhos espontaneamente sugere sistema ativador e hemisférios íntegros, enquanto precisar de estímulo para abri-los, ou não abri-los, sinaliza comprometimento de tronco ou do córtex em graus variados.

Na clínica

Quando falha. O limite da escala é de construção: as três subescalas são somadas como se tivessem o mesmo peso, e a mesma pontuação total pode vir de combinações diferentes, com perda de informação; a escala também não incorpora os reflexos de tronco encefálico, e a sedação e a intubação limitam sua aplicação.

Teste-se antes de seguir

Para afirmar que um paciente inconsciente não responde, que tipo de estímulo você aplica e onde, e que tipo de resposta motora precisa estar ausente para falar em coma não perceptivo?

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Fontes deste bloco (2)
  1. Schmidt WU, Ploner CJ, Lutz M, Möckel M, Lindner T, Braun M. Causes of brain dysfunction in acute coma: a cohort study of 1027 patients in the emergency department. Scand J Trauma Resusc Emerg Med. 2019;27(1):101.
    “The underlying pathologies can broadly be classified into primary intracranial disorders that focally affect the ascending reticular activation system and primarily extracranial disorders that diffusely affect brain structures”
  2. Andraos C, Siddiqi A, Brazdzionis J, Siddiqi J. Limitations of the Glasgow Coma Scale: challenges and considerations. Cureus. 2025;17(2):e78900.
    “Eye-opening, the first component, primarily evaluates the function of the ascending reticular activating system (ARAS) within the brainstem, which plays a critical role in maintaining arousal and wakefulness.”
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Bloco 3

AVC isquêmico e hemorrágico: o que acontece no tecido e o que isso muda na pressão de perfusão e na conduta

Três obras: a diretriz da European Stroke Organisation (2021) sobre pressão arterial no AVC agudo, que sustenta tudo que decide nota, e duas revisões abertas, que sustentam o mecanismo do AVC isquêmico (falta de energia, glutamato, núcleo e penumbra) e o da hemorragia intracerebral (hipertensão e angiopatia amiloide, lesão secundária e edema perihematoma). A unidade pergunta o que esse mecanismo muda na pressão de perfusão e na conduta: o racional da queda de PA na hemorragia, a perfusão da penumbra, a hiperperfusão após recanalização, a PA pré-hospitalar, o tempo e o limite da queda e o spot sign. Ficam de fora a hemorragia subaracnóidea, as doses, as indicações de trombólise e trombectomia e a diretriz brasileira (não abre; dívida declarada).

  1. O AVC isquêmico nasce da interrupção do fluxo sanguíneo cerebral, por trombose ou embolia. A origem pode ser embolia do coração, embolia de uma artéria para outra ou doença de pequenos vasos no próprio local.
  2. Sem fluxo, o tecido fica sem oxigênio e sem glicose: a síntese de ATP falha, e a homeostase iônica e o equilíbrio acidobásico se desorganizam.
  3. O desequilíbrio de sódio, potássio e cálcio despolariza as células e faz com que elas liberem glutamato.
  4. O glutamato em excesso ativa os receptores NMDA, o que induz toxicidade e morte celular: é a excitotoxicidade.
  5. Essas disfunções produzem edema cerebral, neuroinflamação e morte de células neurais, a base do déficit neurológico.
  6. O dano não é uniforme. No núcleo isquêmico, a falta de oxigênio e de glicose costuma levar à necrose irreversível. Na penumbra, o dano é menor e os processos de morte celular (apoptose, autofagia) são reversíveis: é tecido ainda viável.
  1. As duas causas primárias da hemorragia intracerebral espontânea são a hipertensão crônica e a angiopatia amiloide cerebral.
  2. Na hipertensão, a pressão alta remodela as arteríolas (lipo-hialinose e dissecções arteriolares do tipo Charcot-Bouchard); elas se rompem e o sangue extravasa sob pressão para o parênquima profundo.
  3. Por isso os sangramentos hipertensivos ocorrem em áreas profundas, irrigadas por vasos pequenos: putâmen, caudado, tálamo, tronco encefálico e núcleos cerebelares profundos.
  4. Na angiopatia amiloide, o amiloide se acumula na parede arterial e há perda de células musculares lisas, o que aumenta o risco de hemorragia lobar, e não profunda.
  5. Depois do sangramento, a lesão secundária evolui por dias a semanas, por inflamação, toxicidade do sangue e do ferro e estresse oxidativo.
  6. O edema ao redor do hematoma tem duas fases: nas primeiras 24 a 72 horas, vem da passagem de proteínas séricas para o parênquima (edema vasogênico); nos 7 a 14 dias seguintes, continua com a trombina, a inflamação e a lesão pelo ferro.
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Um paciente chega com hemorragia intracerebral espontânea aguda e pressão arterial elevada. Qual é o raciocínio para baixar a PA nesse caso, e que evento do hematoma essa redução tenta impedir?

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Fontes deste bloco (2)
  1. Qin C, Yang S, Chu YH, Zhang H, Pang XW, Chen L, et al. Signaling pathways involved in ischemic stroke: molecular mechanisms and therapeutic interventions. Signal Transduct Target Ther. 2022;7(1):215.
    “Ischemic stroke is caused by an interruption in cerebral blood flow, induced by thrombosis or embolism.”
  2. Magid-Bernstein J, Girard R, Polster S, Srinath A, Romanos S, Awad IA, et al. Cerebral Hemorrhage: Pathophysiology, Treatment, and Future Directions. Circ Res. 2022;130(8):1204-1229.
    “The primary pathoetiologies of spontaneous ICH are chronic hypertension and cerebral amyloid angiopathy (CAA).”
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Bloco 4

Mecanismo da crise convulsiva e da epilepsia: do desequilíbrio excitação-inibição à conduta

A atividade elétrica anormal que dá origem às crises nasce de um desequilíbrio entre excitação e inibição, que pode vir de um gene, de um canal, de um receptor, de um circuito ou de uma lesão adquirida, e o cérebro imaturo é especialmente vulnerável. O protocolo brasileiro organiza o raciocínio clínico por definição, classificação das crises, risco de recorrência e escolha do tratamento.

  1. Cérebro com equilíbrio normal entre excitação e inibição
  2. Alteração em algum nível: gene, canal iônico, receptor, circuito, ou lesão cerebral adquirida
  3. Equilíbrio distorcido: a excitação passa a pesar mais que a inibição
  4. Redes de neurônios mais excitáveis do que o normal
  5. Tecido que gera atividade elétrica anormal com mais facilidade
Na clínica
  • Cérebro em desenvolvimento (lactente, criança pequena) · O equilíbrio nasce inclinado para a excitação, e o limiar para a atividade anormal é mais baixo. · A função sináptica excitatória amadurece antes da inibitória e, no início da vida, o GABA excita em vez de inibir; é por isso que a maior parte das epilepsias começa na infância.
  • Cérebro adulto, com os dois sistemas já maduros · Sem alteração prévia, o equilíbrio é mais estável; mas a mesma atividade anormal deixa mais dano estrutural. · A inibição já cumpre seu papel; em compensação, o cérebro adulto sofre mais lesão estrutural pelas crises do que o imaturo.
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Menino de 8 anos, com desenvolvimento e exame neurológico normais, é levado ao ambulatório porque a escola relata que, dezenas de vezes por dia, ele interrompe o que está fazendo, fica com o olhar parado por cerca de 10 segundos e retoma a atividade de onde parou, sem confusão. Três minutos de hiperventilação no consultório reproduzem o episódio, e o EEG mostra complexos de espícula-onda generalizados a 3 Hz. Qual fármaco é adequado para iniciar o tratamento em monoterapia?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (1)
  1. Stafstrom CE, Carmant L. Seizures and epilepsy: an overview for neuroscientists. Cold Spring Harb Perspect Med. 2015;5(6):a022426.
    “A seizure can be conceptualized as occurring when there is distortion of the normal balance between excitation (E) and inhibition (I) in the brain”
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Bloco 5

Mecanismo da cefaleia primária e secundária: do circuito trigeminovascular à atribuição causal

A dor de cabeça nasce em vasos e meninges inervados pelo trigêmeo, e é esse circuito que explica a enxaqueca. A ICHD-3 separa a cefaleia primária da secundária pela causa, não pelo formato da dor. A unidade treina o raciocínio de atribuição causal e o reconhecimento dos casos em que a cefaleia pede investigação.

  1. O parênquima cerebral é em grande parte insensível: a dor de cabeça nasce de fibras nociceptivas do gânglio trigeminal que inervam os vasos piais, aracnoides e durais, entre eles o seio sagital superior e a artéria meníngea média.
  2. Quando essas fibras são ativadas, seus terminais liberam neuropeptídeos vasoativos, como CGRP e PACAP, que se pensa dilatarem os vasos durais e piais.
  3. O sinal nociceptivo chega ao complexo trigeminocervical, de onde neurônios de segunda ordem sobem pelo trato quintotalâmico até o tálamo, que projeta para o córtex.
  4. Se a ativação persiste, os neurônios trigeminovasculares se sensibilizam, na periferia e no sistema nervoso central, e acredita-se que isso contribua para a duração da crise.
  5. Na enxaqueca com aura, uma onda transitória de despolarização do córtex, a depressão alastrante cortical, é o mecanismo provável da aura e pode ativar o núcleo trigeminal caudal.
Na clínica

Fato. Na ICHD-3, a cefaleia secundária é a causada por outro transtorno e se diagnostica por três elementos, a cefaleia (A), o transtorno causador (B) e a evidência de causalidade entre os dois (C), sem esperar que a doença de base remita.

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Uma mulher de 31 anos, sem nenhuma cefaleia antes, sofre uma queda com trauma craniano leve. Três dias depois começa uma dor pulsátil, unilateral, de intensidade moderada, com náusea e fotofobia, pior ao subir escadas. É a primeira cefaleia da vida dela. Como você classifica essa cefaleia?

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Fontes deste bloco (2)
  1. Goadsby PJ, Holland PR, Martins-Oliveira M, Hoffmann J, Schankin C, Akerman S. Pathophysiology of Migraine: A Disorder of Sensory Processing. Physiol Rev. 2017;97(2):553-622.
    “The brain is known to be largely insensate, but a rich plexus of nociceptive nerve fibers that originate in the trigeminal ganglion innervate the pial, arachnoid, and dural blood vessels, including the superior sagittal sinus and middle meningeal artery, as well as large cerebral arteries”
  2. Headache Classification Committee of the International Headache Society (IHS). The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211.
    “Secondary headache (disorder): Headache, or a headache disorder, caused by another underlying disorder.”
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Bloco 6

Neuroinfecções: o que a meningite bacteriana faz além das meninges, como se separa encefalite de encefalopatia e o que não pode esperar pela punção

Três obras de nível diretriz, consenso ou revisão (diretriz alemã DGN/AWMF de meningite bacteriana de 2023, consenso do International Encephalitis Consortium de 2013 e uma revisão brasileira de encefalite viral) e a orientação pública do Ministério da Saúde: as complicações intracranianas e sistêmicas que fazem da meningite bacteriana uma doença de UTI; por onde o vírus chega ao sistema nervoso e onde o herpes simples deixa marca; a definição de encefalite contra encefalopatia e os critérios do consenso; os sintomas cardinais e o perfil do líquor da meningite bacteriana; quando a tomografia precede a punção e o que não espera quando a punção atrasa; a regra de acrescentar aciclovir enquanto o herpes simples é possível; e o patógeno mais frequente na Europa Central. Ficam de fora o esquema antibiótico, as doses, a dexametasona, a quimioprofilaxia, a encefalite autoimune, a tuberculose e a criptococose do SNC e o perfil do líquor viral. A diretriz é europeia e nenhuma diretriz brasileira clínica abriu: a epidemiologia brasileira não foi aferida aqui.

  1. A meningite bacteriana aguda não fica restrita às meninges: cerca de metade dos adultos desenvolve complicações neurológicas e/ou sistêmicas, de gravidade variável, na fase aguda.
  2. Dentro do crânio, a doença pode produzir edema cerebral, hidrocefalia e complicações cerebrovasculares: vasculite, vasoespasmo, perda da autorregulação cerebral e trombose de seios e de veias corticais.
  3. Por isso a imagem inicial procura hidrocefalia, edema generalizado, isquemia e trombose, e a piora clínica durante o antibiótico, ou sinais que a tomografia não explica, levam a sugerir ressonância.
  4. Fora do sistema nervoso, a doença se manifesta como choque séptico e coagulação intravascular disseminada, entre outras complicações sistêmicas.
  5. Pela frequência dessas complicações, sugere-se tratar o paciente em terapia intensiva na fase inicial da doença.
  6. Entre os sobreviventes as sequelas de longo prazo são comuns, em particular perda auditiva e déficit cognitivo, e convém procurá-las ativamente.
  1. A maioria das encefalites virais ocorre depois da disseminação do vírus pelo sangue até o sistema nervoso central.
  2. Herpesvírus e o vírus da raiva podem chegar ao sistema nervoso por via nervosa, sem depender da disseminação pelo sangue.
  3. Na encefalite por herpes simples a ressonância pode mostrar hiperintensidade nos lobos temporais, no giro do cíngulo e nos córtices orbitofrontal e insular, regiões que ajudam a levantar a suspeita.
  4. O líquor da encefalite por herpes simples pode ser hemorrágico em parte dos pacientes.
  5. A encefalite viral é a causa mais comum de encefalite e responde por alta morbidade e sequelas neurológicas permanentes.
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Um paciente com hipoglicemia grave fica confuso. Chamaríamos isso de encefalite? O que separa encefalite de encefalopatia, e a ausência de células no líquor exclui encefalite?

Responder na AvaliaçãoA resposta fica na Avaliação, sem spoiler aqui.
Fontes deste bloco (2)
  1. Klein M, Abdel-Hadi C, Bühler R, Grabein B, Linn J, Nau R, et al. German guidelines on community-acquired acute bacterial meningitis in adults. Neurol Res Pract. 2023;5:44.
    “Around half of adult patients with bacterial meningitis develop neurological and/or systemic complications of varying degrees of severity in the acute phase of the disease”
  2. Viral encephalitis: a practical review on diagnostic approach and treatment. J Pediatr (Rio J). 2020.
    “Viral encephalitides usually occur after hematogenic viral dissemination into the central nervous system (CNS). However, herpesviruses and Lyssavirus (rabies) can cause neurologic disease through nerve-rout dissemination.”
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Bloco 7

Neuropatias periféricas: o que separa a lesão do axônio da lesão da mielina e o que a lentificação da condução não prova

Resumo de uma revisão narrativa de acesso aberto sobre mecanismos patológicos das doenças dos nervos periféricos (2025), não de uma diretriz clínica; parte dos achados descritos vem de modelos experimentais. Cobre os dois padrões básicos, axonopatia e mielinopatia, e como coexistem; a degeneração axonal e a degeneração em "dying-back"; a desmielinização segmentar, a remielinização com internódios curtos, os bulbos de cebola e a desmielinização secundária; e por que bloqueio de condução, lentificação e alargamento nodal não são, sozinhos, prova de desmielinização.

  1. As lesões do nervo periférico se organizam em dois padrões básicos pela patologia: a axonopatia, que inclui a degeneração axonal walleriana, a atrofia e a distrofia axonal, e a mielinopatia, que consiste sobretudo em desmielinização segmentar primária e disomielinização.
  2. Os dois padrões costumam coexistir, simultânea ou sequencialmente: uma atrofia axonal pode resultar em desmielinização secundária.
  3. Segundo a revisão narrativa, o esmagamento e a secção do axônio são os mecanismos de lesão nervosa mais comuns e mais estudados que levam à degeneração axonal; mecanismos adicionais incluem toxinas, inclusive fármacos, e lesões vasculares com dano isquêmico, como a vasculite.
  4. Nos axônios mais longos a porção distal pode ser preferencialmente afetada, fenômeno observado em numerosas neuropatias crônicas experimentais e humanas (a revisão não separa aqui o que vem de modelo animal e o que vem de humanos): a degeneração parece avançar do segmento distal em direção ao corpo celular, a "dying-back", citada na neuropatia diabética, em neuropatias tóxicas (quimioterapia, álcool, isoniazida) e em neuropatias virais (HIV, hepatite C).
  5. Essa observação leva ao conceito de que o axônio distal corre o maior risco de degeneração por sua distância da fonte sintética do neurônio.
  1. O dano seletivo à célula de Schwann ou à própria mielina leva à degeneração da bainha e à desmielinização segmentar, caracterizada pela perda de um ou mais internódios com preservação relativa da integridade do axônio.
  2. Segundo a revisão narrativa, a remielinização de um internódio pode ocorrer depois da proliferação das células de Schwann e forma, em geral, vários internódios curtos intercalados no lugar do original.
  3. Se ciclos de desmielinização ocorrem antes de as células de Schwann redundantes serem eliminadas, instala-se um processo cíclico de desmielinização e remielinização que forma os bulbos de cebola hipertróficos.
  4. A desmielinização secundária difere da segmentar: em vez de focos distribuídos ao acaso ao longo de cada axônio, agrupa-se em axônios selecionados, distalmente a alterações degenerativas da axonopatia, e é típica da neuropatia urêmica, podendo ocorrer também em outras, como a diabética.
  5. A análise de fibras dissociadas (teased fibers) é útil para detectar um componente desmielinizante, porque permite identificar a desmielinização segmentar.
  1. O alargamento dos nós de Ranvier pode ocorrer sem outros sinais de desmielinização segmentar, em paranodopatias autoimunes e na neuropatia axonal motora aguda (AMAN), e por isso não deve ser tomado como evidência exclusiva de desmielinização segmentar.
  2. A AMAN, subtipo de Guillain-Barré associado a anticorpos IgG anti-GM1, tem bloqueios e lentificação da condução que a princípio imitam desmielinização, mas regridem sem dispersão temporal: é a falha de condução reversível, de resolução rápida e sem os componentes lentos típicos da remielinização.
  3. Nesses pacientes há desprendimento paranodal, alargamento nodal e degeneração axonal, o que sustenta um continuum da disfunção axonal reversível à degeneração axonal irreversível.
  4. No sentido oposto, na doença de Charcot-Marie-Tooth tipo 1A, tradicionalmente classificada como desmielinizante, a revisão a considera uma disomielinização: a velocidade de condução é reduzida de modo uniforme em todos os nervos desde a infância.
  5. Nela, ao contrário da velocidade, a amplitude do potencial de ação muscular composto, que reflete degeneração axonal, correlaciona-se com a gravidade da doença.
Fontes deste bloco (1)
  1. Basic Pathological Mechanisms in Peripheral Nerve Diseases. Revisão narrativa de acesso aberto, 2025 (PMC11989557).
    “PNS lesions can be classified into two major basic patterns based on their neuropathological characteristics: (a) axonopathy, which includes axonal (Wallerian) degeneration (WD), axonal atrophy, and axonal dystrophy, and (b) myelinopathy, which consists mainly of primary segmental demyelination and …”
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Cinco portas para o app

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